Quando o poeta resolveu sair pela porta da frente da Câmara

Victorino Carriço renunciou à presidência da Câmara de Cabo Frio em 1973 e deixou o campo político para cultivar a poesia

Victorino Carriço renunciou à presidência da Câmara de Cabo Frio em 1973 e deixou o campo político para cultivar a poesia

1973. Uma noite que estremeceu os bastidores da política cabo-friense e inscreveu, com tinta fina e letra firme, um capítulo singular na história da Câmara Municipal. Victorino Carriço, o mais votado vereador de 1972, então presidente da Casa, subiu à tribuna e renunciou ao cargo. Não por escândalo, nem por punição, mas por cansaço e por poesia.

“Santinho”, como era conhecido, não suportava a aspereza das disputas políticas, os jogos de poder, as intrigas de bastidor. “Tinha um vereador que pegava no pé dele e ele odiava. Quem tentou convence-lo a não sair foi Alair Corrêa, mas não conseguiu. Chegaram a ir a Arraial do Cabo com o então prefeito da cidade, Antônio Castro, mas nada adiantou”, lembra Fernanda Carriço, neta do poeta e guardiã de sua memória.

Ainda segundo Fernanda, na carta de renúncia lida em plenário, Victorino chegou a dizer que “política não combinava com poesia”, completou

E como previa o Regimento Interno, o vereador Osvaldo Rodrigues dos Santos, presidente da casa em exercício, convocou o mais votado da legislatura para assumir a presidência, que era Alair Corrêa. Começava então o início de uma nova trajetória.

Alair já havia sido eleito vereador em 1970 e reeleito em 1972. Após a saída de Carriço, assumiu o comando da Câmara e, dali em diante, construiu uma carreira que o levaria à Prefeitura de Cabo Frio em três mandatos (1983–1988, 1997–2004 e 2013–2016). Um ciclo político se abria, enquanto outro se encerrava em versos.

Neste 29 de julho, dia em que o poeta completaria 113 anos, sua presença continua ecoando pelas esquinas da cidade e pelas páginas da cultura da Região dos Lagos. Talvez porque, naquele gesto tão silencioso quanto simbólico, Santinho tenha nos ensinado algo essencial: há momentos em que a poesia precisa dizer adeus para continuar sendo poesia.

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