Antes de se tornar um dos destinos turísticos mais conhecidos do país, Arraial do Cabo era uma vila marcada pela pesca artesanal, pela força das indústrias e pelo desejo de independência política. Hoje, 41 anos após a emancipação político-administrativa, celebrada nesta quarta-feira (13), a trajetória da cidade ajuda a contar também a história da mobilização de um povo que lutou para avançar, mantendo viva a própria identidade.
Pesquisador da história cabista e autor dos livros “K-36 – o zeppelin que caiu no Cabo” e “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia”, Leandro Miranda acompanha há mais de uma década os registros e memórias do município. Segundo ele, o movimento emancipacionista começou ainda nos anos 1960, impulsionado pelo crescimento econômico da região.
“Arraial do Cabo tinha várias indústrias naquele período, como a Companhia Nacional de Álcalis e a Taiyo, além de outras empresas que prestavam serviços para a Álcalis. Os impostos arrecadados aqui representavam uma parte muito importante da receita de Cabo Frio. Em 1958, por exemplo, a arrecadação da região, que na época era o 4º distrito cabo-friense, passou a superar a dos demais, despertando um sentimento de independência na população. Já em 1962, os impostos pagos pela Álcalis e Taiyo chegavam a mais de 40% da receita da cidade, mas a população entendia que o distrito não recebia investimentos na mesma proporção”, explicou.



De acordo com o pesquisador, foi a insatisfação gerada pela má aplicação dos recursos que deu origem ao movimento liderado por moradores e representantes locais. No processo, os cabistas enfrentaram dificuldades burocráticas e políticas, mas, aos poucos, as reuniões sobre o assunto foram crescendo, ganhando adeptos e apoio. Até que a conquista definitiva da emancipação foi oficializada em 1985, pelo governador Leonel Brizola.
Ainda segundo Leandro, quando se tornou uma cidade independente de Cabo Frio, Arraial estava no auge do desenvolvimento industrial, mas ainda preservava características de vila pesqueira. “Naquela época, havia uma presença muito forte da pesca artesanal, das canoas de rede, das traineiras. Ia além da referência cultural, era uma atividade econômica. O turismo veio depois. Naquela época, ainda era muito pequeno perto do que vemos hoje, que chegamos a receber cerca de dez mil visitantes em um único dia na alta temporada”, relembrou.
Ao longo das últimas quatro décadas, a cidade passou por profundas transformações urbanas, econômicas e sociais, com investimentos em saneamento e infraestrutura. Nesse período, o pesquisador destaca que o município deixou de ter a indústria como principal motor econômico e consolidou o turismo como uma das principais atividades da cidade.


Para Leandro, apesar das mudanças, preservar a memória e a identidade cabista segue sendo essencial para as futuras gerações.
“É verdade que muito foi feito nesses quarenta anos, mas é preciso pensar nos próximos quarenta que virão pela frente. Ser cabista é amar a nossa tradição, a nossa origem e a nossa cidade. É importante preservar essa história para que ela não se perca com o tempo”, destacou o pesquisador, reforçando a importância de manter vivas as referências históricas do município, desde a tradição pesqueira até os marcos da emancipação política que transformaram Arraial do Cabo em cidade.

