Enquanto muitos passam diariamente pelos mesmos lugares sem reparar nos detalhes, a arquiteta Gabriela Tardelli enxerga possibilidades. Com a ajuda da inteligência artificial, ela vem transformando cenários conhecidos de Cabo Frio em versões revitalizadas que misturam criatividade, urbanismo e planejamento urbano. O resultado tem chamado atenção nas redes sociais, onde centenas de moradores acompanham, comentam e compartilham as projeções que, para muitos, representam a cidade que gostariam de ver no futuro.
O que começou como uma forma de aperfeiçoar ferramentas utilizadas em sua rotina profissional acabou se transformando em um fenômeno de engajamento. Nas postagens, Gabriela apresenta releituras de espaços públicos, áreas turísticas e construções conhecidas da cidade, despertando reflexões sobre o potencial urbano de Cabo Frio e a importância de preservar sua identidade.
Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF) há 18 anos, Gabriela nasceu, cresceu e continua vivendo em Cabo Frio. O amor pela cidade e o interesse por discutir seu desenvolvimento acompanham sua trajetória profissional. “Nasci, cresci e vivo aqui em Cabo Frio e tenho muito carinho pela cidade. Toda minha família é daqui. Eu sempre gostei de debater a cidade e as soluções para ela, mesmo não tendo muito espaço para isso.”
O interesse pelo desenvolvimento urbano de Cabo Frio também tem raízes familiares. Gabriela é sobrinha-neta de Otime Cardoso dos Santos, figura conhecida na história da cidade. Segundo ela, muitas das reflexões sobre o futuro do município nasceram das conversas que mantinha com o tio-avô. “Foi com ele que eu já troquei muita ideia e conversei muito sobre o que poderia ser feito aqui enquanto ele era vivo”, relembra.
O olhar de quem vive a cidade
Ao longo dos últimos meses, diversos locais conhecidos dos cabofrienses já passaram pelo olhar criativo da arquiteta. Entre eles estão o Terminal Rodoviário Alex Novelino, o Hospital Municipal da Mulher, a Biblioteca Pública Professor Walter Nogueira, o calçadão do Centro, a Rua Major Belegard, além do bairro da Passagem, do Jardim Esperança e de outros espaços urbanos que fazem parte da rotina da população. As publicações costumam alcançar grande repercussão nas redes sociais, acumulando curtidas, comentários e compartilhamentos. Em muitos casos, os seguidores aproveitam para sugerir novos locais, opinar sobre as propostas apresentadas e discutir alternativas para melhorar a cidade.
Da arquitetura para as redes sociais
Segundo ela, a iniciativa surgiu durante um processo de capacitação voltado ao uso da inteligência artificial em apresentações de projetos arquitetônicos. Para treinar a ferramenta, passou a utilizar imagens de espaços públicos da cidade. Sem grandes pretensões, começou a compartilhar os resultados com seus seguidores. “Passei a publicar as ideias no intuito de apenas compartilhar o resultado, só que isso começou a gerar uma reação positiva das pessoas me perguntando como eu enxergo determinados lugares. Eu já ando por aí reformando as coisas mentalmente. Para mim, faz parte do meu trabalho e do meu dia a dia. E percebi que não é comum as pessoas que não vivem isso observarem a cidade com um olhar de transformação, como se vivêssemos no automático”, conta.
A resposta do público foi além do esperado. Moradores passaram a sugerir novos locais, comentar as transformações e compartilhar desejos para o futuro da cidade. Para Gabriela, ficou evidente que existe uma necessidade coletiva de discutir os espaços urbanos. “Eu nunca bati essas visualizações com meus projetos reais. Foi uma doideira perceber como as pessoas têm necessidade de debater a cidade e também possuem ideias muito bacanas”, conta.
As mensagens de incentivo, elogios e agradecimentos se multiplicaram desde que as postagens começaram a ganhar repercussão. Segundo Gabriela, muitas pessoas passaram a enxergar nas imagens algo que já imaginavam para a cidade. Ela afirma que as simulações não refletem apenas sua visão profissional, mas também desejos compartilhados pelos próprios moradores, que frequentemente sugerem ideias, apontam problemas e participam das discussões nos comentários.
Sonhos, pertencimento e debate urbano
A repercussão também abriu espaço para discussões sobre turismo, qualidade de vida e pertencimento. Segundo Gabriela, uma cidade mais organizada, bonita e acolhedora beneficia não apenas os visitantes, mas principalmente quem vive nela diariamente. “Muita gente começou a observar o quanto a beleza está conectada com um turismo de qualidade. Não podemos viver apenas de belezas naturais. É preciso estrutura. A arquitetura e o urbanismo pensados trazem segurança e qualidade de vida para o cidadão. O turismo de qualidade vira consequência”, explica.
Entre os comentários que mais se repetem nas publicações, alguns se tornaram marcantes para a arquiteta. “O que eu mais ouço é: ‘Essa é a cidade que merecemos’, ‘Nossa, como temos potencial’. O maior retorno que tenho é ver que as pessoas estão começando a olhar e observar a cidade e pensar em soluções para ela. Todo mundo pode colaborar. Ideias debatidas podem ser aprimoradas.”
Não por acaso, uma frase se tornou recorrente entre os seguidores que acompanham suas publicações: “Você está deixando a gente sonhar”. Para a arquiteta, essa talvez seja a melhor tradução do que seu trabalho vem provocando. Afinal, imaginar uma cidade melhor pode ser o primeiro passo para construí-la.
Seja revisitando o Centro Histórico, imaginando novos usos para terminais urbanos ou propondo intervenções em equipamentos públicos, Gabriela vem mostrando que a tecnologia pode servir não apenas para criar imagens, mas também para estimular conversas sobre a cidade que os cabofrienses desejam construir para as próximas gerações.


