Elas narram Cabo Frio: o olhar feminino que transforma histórias em pertencimento

Fernanda Carriço e Mari Ricci demonstram como narrar a cidade com sensibilidade e histórias individuais

Fernanda Carriço e Mari Ricci demonstram como narrar a cidade com sensibilidade e histórias individuais

Nos bastidores da reportagem sobre Aline Póvoas e Roberta Moraes, duas executivas da concessionária Prolagos, um movimento silencioso — porém poderoso — se formou, revelando o lado de mulheres que constroem narrativas sobre outras mulheres. A pauta, que inicialmente trataria apenas de saneamento, ganhou densidade, identidade e afeto quando encontrou duas profissionais que colocam a própria trajetória a serviço do jornalismo local. Fernanda Carriço, na condução da palavra, e Mari Ricci, na delicadeza do olhar fotográfico.

Ao revisitar a experiência da entrevista, Fernanda retorna ao ponto que, para ela, sustenta todo o sentido do encontro, que se inicia desde a herança feminina, que atravessou gerações em silêncio. “Nós somos de uma geração em que nossas mães e avós não puderam ser e estar onde queriam. E nós viemos ao mundo com essa missão”, conta.

É desse entendimento que brota sua convicção sobre a importância de mulheres contarem histórias de outras mulheres. Fernanda carrega na voz e na escrita a memória de lutas que ainda ecoam. “Contar a história de duas mulheres como Roberta e Aline me dá um lugar de fala muito grande. Em 32 anos de jornalismo, passei por muito preconceito, muito machismo, foi muita luta para ser respeitada. Acho que é importante a mulher dar voz à mulher e no lugar de fala dela”, conta.

Aline Póvoas, Fernanda Carriço e Roberta Moraes (Foto: Mari Ricci)

A mulher cabofriense como matriz da cidade

Quando se pergunta quem é a mulher de Cabo Frio, Fernanda busca na própria cidade os elementos que formam essa identidade múltipla, ancestral e essencial. “A mulher cabo-friense é uma mulher caiçara, da cultura da pesca, mulher que teve um papel muito importante no desenvolvimento porque ela estava ali, cuidando da família. A gente vê a história de Cabo Frio sendo escrita por grandes mulheres”, conta.
E é justamente essa vivência e desse modo de estar no território, que dá às mulheres o poder de narrar com profundidade e delicadeza. “Acho que a mulher tem mais sensibilidade. A gente consegue ter um olhar mais apurado sobre o cotidiano. O olhar feminino muda tudo”, complementa.

Fotografar como quem escuta

Para Mari Ricci, a fotografia não é apenas registro: é convivência, presença e vínculo. Sua trajetória confirma isso. Mesmo não sendo nascida em Cabo Frio, ela criou raízes na cidade, e a cidade, por sua vez, moldou seu olhar. “Esse momento de fotografar um lugar que também é meu cotidiano e não apenas um cenário, foi um processo. Primeiro se tornou meu lar e em pouco tempo que eu morava aqui minha mãe me incentivou para começar a fotografar. Foi essa cidade inteira que me chamou. Acho que despertou meu olhar de verdade. Me fez querer enxergar as coisas de visões diferentes, ver as pessoas de uma maneira diferente”, conta.

Mari cresceu profissionalmente dentro do fotojornalismo, fotografando o real cotidiano do imediato. “O fotojornalismo é o olhar de gente de verdade. Não é nada montado, é o cru ali, de verdade.”

Mas, como tantas mulheres no audiovisual, trilhou uma jornada dura para afirmar sua presença em um campo frequentemente dominado por homens , o que também atravessa sua estética e sua força. “É um campo extremamente machista. Apanhei literalmente muito nessa trajetória de quase 18 anos de fotografia. Tenho que estar sempre ali colocando o meu para frente, explicando para as pessoas que eu não estou aqui de agora.”

Ainda assim, é a cidade e sua gente, que a mantém firme e em movimento. “Cabo Frio me enxergou e eu consigo contar a história dela aos pouquinhos, em toda a pauta, em todo ensaio, em toda história que eu conheço”, pontua.

Executivas posando sob os olhares de Mari Ricci (Foto: Francine Rosa)

Mulheres no jornalismo local

Com três décadas dedicadas às histórias da região, Fernanda faz um recorte certeiro sobre o papel do jornalismo local na construção da consciência social. “Não existe um país sem as pequenas e grandes cidades. O local é fator preponderante para a construção de sociedades mais justas e igualitárias”, pontua.

Essa percepção se fortaleceu ainda mais no encontro com Aline e Roberta, quando a pauta ultrapassou o limite técnico e se transformou em espelho. “Foi uma manhã de bate-papo muito enriquecedor. São mulheres com fibra, com exemplo de vida, com determinação. Isso reforça a vontade de continuar contando histórias, continuar dando voz a pessoas que precisam desse lugar de fala”, conta.

Nas fotos dos bastidores dessa entrevista vão muito além do registro de um encontro entre quatro profissionais. Elas revelam a força da presença feminina na construção das narrativas que moldam Cabo Frio, seja pela palavra, pela lente ou pela própria trajetória de vida.

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