Estudo encontra mercúrio acima do limite em peixe de mar aberto vendido em Cabo Frio

Especialista afirma que situação não é exclusiva de Cabo Frio e não é motivo de alarde

O estudo publicado na revista científica Neotropical Ichthyology trouxe à tona nesta semana um alerta sobre a presença de mercúrio em exemplares de bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) capturados em Arraial do Cabo e comercializados em Cabo Frio. A pesquisa identificou que parte dos peixes analisados apresentou concentrações acima do limite recomendado para consumo humano, embora especialistas ressaltem que o cenário não deve ser tratado como motivo de alarde.

Realizado por pesquisadores do Instituto Federal Fluminense (IFF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), o estudo avaliou 30 exemplares da espécie e verificou que cerca de metade das amostras ultrapassou o limite de 1 mg/kg de mercúrio estabelecido pela legislação para peixes predadores. Em alguns casos, os índices chegaram próximo de 2 mg/kg.

O biólogo Eduardo Pimenta, que analisou o trabalho e conversou com um dos autores da pesquisa, destaca que o fenômeno observado não é exclusivo da Região dos Lagos.”A contaminação de peixes oceânicos por mercúrio é um problema ambiental e de saúde pública global. Não é algo exclusivo da nossa região”, pontua.

Segundo ele, o mercúrio chega aos oceanos principalmente por atividades industriais e, ao longo do tempo, transforma-se em metilmercúrio, uma substância altamente tóxica que se acumula na cadeia alimentar marinha. Por esse motivo, espécies predadoras de grande porte tendem a concentrar níveis mais elevados do contaminante.

O especialista também faz questão de esclarecer um ponto que pode gerar interpretações equivocadas sobre a pesquisa. “Estamos falando de peixes oceânicos, capturados em mar aberto. Não tem relação com a Laguna de Araruama, que é outro ecossistema completamente diferente.”

O próprio estudo informa que os exemplares analisados foram capturados na costa de Arraial do Cabo, área influenciada pelo fenômeno da ressurgência marinha, e desembarcados para comercialização em Cabo Frio. Apesar dos resultados, Eduardo Pimenta pondera que os números devem ser interpretados com cautela. Dos 30 peixes avaliados, nem todos apresentaram concentrações acima dos limites recomendados. “É uma situação que chama atenção, mas não vejo como motivo de alarde.”

A avaliação é compartilhada pelos próprios autores do artigo, que ressaltam a necessidade de monitoramento contínuo da espécie e defendem novos estudos para compreender melhor a dinâmica do mercúrio em áreas de ressurgência como Arraial do Cabo.

O bonito-pintado é uma espécie bastante conhecida pelos pescadores da Região dos Lagos e ocupa posições elevadas na cadeia alimentar marinha. Segundo a pesquisa, o consumo frequente do peixe merece atenção, especialmente entre grupos mais sensíveis, como crianças e gestantes.

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