Mapeamento revela presença e força de comunidades tradicionais na Região dos Lagos

Inea identificou quilombolas, pescadores artesanais, salineiros e caiçaras vivendo em áreas de conservação

Inea identificou quilombolas, pescadores artesanais, salineiros e caiçaras vivendo em áreas de conservação

A Região dos Lagos carrega uma história anterior ao turismo, às cidades balneárias e ao crescimento urbano acelerado. Um levantamento inédito do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) reforça essa memória ancestral ao identificar que parte importante das comunidades tradicionais do estado vive justamente em territórios protegidos da região.

Entre as 97 comunidades mapeadas em unidades de conservação no Rio de Janeiro, a Área de Proteção Ambiental (APA) Estadual Pau Brasil, que abrange áreas de Cabo Frio, Búzios e Armação dos Búzios, desponta como um dos principais núcleos de diversidade sociocultural. Ali, ainda resistem e se organizam quilombolas, pescadores artesanais, salineiros e caiçaras, mantendo vínculos seculares com o território, suas tradições e saberes.

Das 12 comunidades quilombolas identificados em unidades de conservação no estado, uma delas fica na APA Pau Brasil, fortalecendo o vínculo histórico entre o território e descendentes de povos africanos escravizados que construíram modos de vida próprios, hoje associados à agricultura tradicional, religiosidade e turismo de base comunitária.

Para o secretário estadual do Ambiente e Sustentabilidade, Bernardo Rossi, o estudo permite enxergar algo que sempre existiu, mas que historicamente foi ignorado ou silenciado. “O mapeamento permite enxergar, de forma inédita, a diversidade e a força cultural das comunidades tradicionais. Ao entender melhor seus modos de vida, conseguimos aprimorar nossas ações e valorizar saberes que atravessam gerações”, conta.

Além dos quilombolas, a Região dos Lagos também abriga Comunidades de pescadores artesanais, presentes em áreas como Massambaba, Araruama e Pau Brasil. A última comunidade salineira reconhecida do estado, na APA Massambaba é herdeira de práticas que moldaram a economia regional durante séculos. Grupos caiçaras que integram modos de vida do litoral, mesmo que muitos já tenham sido deslocados para fora de áreas originais ao longo da urbanização.

Esses povos mantêm relações sustentáveis com os ecossistemas, respeitando ciclos naturais, como a pesca fora do período de reprodução e a extração de sal ainda realizada com técnicas manuais, como no caso da histórica Salina Glória, em Araruama.

O estudo foi realizado ao longo de 2025 por uma equipe multidisciplinar formada por biólogos, geógrafos, engenheiros florestais e turismólogos. O objetivo é transformar o levantamento técnico em instrumentos de políticas públicas que garantam direitos, continuidade territorial e condições de permanência das populações tradicionais.

A coordenadora da pesquisa, Carolina Marques, destaca que o diagnóstico identifica muito mais do que localização geográfica. “O levantamento ajuda a entender como essas comunidades ocupam e utilizam as unidades de conservação e quais ações são necessárias para garantir a preservação de seus costumes.”

Como desdobramento do estudo, o Inea já capacitou 216 condutores comunitários e criou o Núcleo de Povos e Comunidades Tradicionais, responsável pelo diálogo permanente com os grupos.

Para Estefanie Rodrigues, chefe do núcleo e remanescente do Quilombo Boa Esperança, em Areal, o reconhecimento oficial dessas populações pode marcar uma mudança histórica na gestão ambiental. “Esses territórios são parte viva das áreas protegidas. Muitas comunidades estão nesses locais antes mesmo da criação das unidades. A escuta ativa é essencial”, pontua.

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