As luzes do canto esquerdo da Praia Grande se destacam na noite escura e proporcionam um belo espetáculo. É a tradicional pesca da lula que marca a cultura cabista. Com a temporada da pesca do molusco em pleno vigor, os olhares se voltam para o tradicional Festival da Lula de Arraial do Cabo. O evento é um marco no calendário municipal e, em 2024, ocorre entre os dias 28 e 31 de março, na orla da Praia Grande. A lula aparece sazonalmente. Geralmente, a pesca começa no fim do ano e tem seu auge entre fevereiro e abril.
“A lula começou a dar em dezembro aqui em Arraial do Cabo. Foi um pouco falhado, mas começou a dar em dezembro. Em janeiro também, continuou a mesma coisa. Agora fevereiro deu mais um pouquinho”, pontuou Gustavo Távora, que tem uma peixaria online e faz entregas em Cabo Frio e Arraial e, nesta época, fica de olho na pesca da lula. Gustavo, assim como outros comerciantes e pescadores, sabem que o preço da lula varia de acordo com a quantidade pescada: de R$50 no início da temporada, o preço do quilo já está sendo encontrado a R$25.


“Depende muito do mercado e da quantidade que está dando no momento. Se a lula estiver dando mais aqui na área, o preço fica bom para a gente. Mas, se também estiverem pegando em outros lugares, consequentemente, o mercado fica com mais lula e o valor cai”, disse Roger Veiga, pescador da cidade.
De acordo com ele, a temporada de 2024 ainda não se compara à de 2023. “Este ano, se comparado à mesma época do ano passado, ainda está fraco. Deveria estar melhor. O forte dela é nos próximos meses, março e abril. A expectativa para estes meses é de pegar boas quantidades”, afirmou.

Marco cultural de Arraial do Cabo
O Festival da Lula tem organização da Associação de Pescadores de Arraial do Cabo (APAC) em colaboração com a Prefeitura. Empresários interessados em expor no evento já podem se inscrever. Mas não é só o evento em si que é integrante da cultura local. Isso porque a própria lula tem seu espaço na construção da identidade cabista.
Para o professor de gastronomia do Instituto Federal Fluminense (IFF) Fernando Mello, a lula não é apenas um recurso marinho, mas um tesouro cultural. Autor do livro “Do mar à mesa: a pesca e a culinária típica da Região do Cabo Frio”, Mello destacou a importância da lula na identidade gastronômica local.
“Se fosse fazer um resumo, a lula faz parte da cultura. Em função de todas as práticas de pesca, dos hábitos, dos costumes, da cultura local e da própria alimentação”, explicou Mello. “Ela é relevante no aspecto cultural, econômico e gastronômico, sendo um produto diferenciado, especialmente quando temos o uso do termo ‘lula de Arraial’ pelos restaurantes para designar a qualidade desse produto em função da sua origem”.
Conforme lembra o professor, o processo para a consolidação da lula como parte dessa identidade cabista consta até em uma publicação do próprio Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). Em 1978, o prato “lula na brasa” entrou em uma publicação do instituto que registrou “o saber culinário baseado na cultura popular e que eram transmitidos oralmente por essas comunidades pesquisadas”.
Desde o início do Festival da Lula, nos anos 80, antes mesmo da emancipação político-administrativa de Arraial do Cabo, novos pratos entraram no cardápio do evento. Por exemplo, no ano passado, entre as variedades, estavam lula à dorê, strogonoff de lula, escondidinho de lula e até cachorro-quente preparado com a iguaria.


