410 anos de história: o que mudou no modo de viver cabo-friense?

Do sal ao sol, historiador revela como transições econômicas transformaram Cabo Frio ao longo dos anos

Do sal ao sol, historiador revela como transições econômicas transformaram Cabo Frio ao longo dos anos. Foto: Reprodução/ Internet

É sempre encantador quando, ao amanhecer, o sol ilumina o Forte São Matheus, na Praia do Forte, em Cabo Frio. A cena, comum há centenas de anos, se repetiu na manhã desta quinta-feira (13), em que o município completa 410 anos de história. E foi ela que levou a equipe do portal Fontecerta.com a promover um encontro entre passado e presente.

Fundada em 1615, Cabo Frio atravessou diversos ciclos econômicos, do sal à pesca, e do comércio ao turismo. Foram esses momentos históricos que influenciaram o modo de viver cabo-friense. E a trajetória do “sal ao sol” foi o tema da conversa com o historiador Acioli Junior, que explicou as principais etapas de desenvolvimento da quinta cidade mais antiga do País, que foram responsáveis por criar a Cabo Frio de hoje.

Segundo o historiador, apesar da celebração de hoje marcar 410 anos, a história é mais antiga e começou quando indígenas Tupi-Guarani, Sambaquieiros e da civilização Una habitavam o terrítorio no período pré-colonial. “Entre 1503 e 1615, essas terras eram habitadas por povos indígenas Tupi-Guarani, além dos sambaquieiros e da civilização Una. O sítio arqueológico Aldeia do Portinho, onde hoje está o Shopping Park Lagos, é o único na Região dos Lagos com vestígios desses três povos. É ali que começa a nossa história”, contou.

Acioli destaca que, quando foi oficialmente fundada, Cabo Frio não tinha um núcleo urbano consolidado, mas possuía uma função estratégica: proteger o litoral de invasores vindos dos mares. Foi a partir dessa necessidade que as primeiras fortificações — algumas ainda existentes e consideradas patrimônios históricos — foram construídas. “O primeiro forte, o de Santo Inácio, foi erguido em 1615 no Morro do Arpoador, em frente ao atual Forte São Matheus. Esse forte não existe mais, mas junto com o Forte São Matheus, erguido entre 1617 e 1620, cumpriam a função militar da cidade”, destacou o historiador.


Os primeiros passos cabo-frienses

Os primeiros passos para a criação do modo de viver cabo-friense vieram depois, quando houve um aumento significativo da população local. Entre 1650 e 1660, a grave crise do sal português que desabasteceu o Brasil chamou a atenção metropolitana para a cristalização natural do produto na Lagoa de Araruama. Com esse impulso dado à economia, um centro urbano começou a ser levantado junto à atual Praça Porto Rocha. É nesse momento que a Lagoa de Araruama, a maior laguna hipersalina do mundo, ganha destaque na cultura local e aldeias de pescadores começam a ser levantadas — e é a partir disso que nasce nossa relação com o sal e a pesca, que é uma das nossas maiores heranças culturais do passado.

“A Lagoa de Araruama já pertenceu toda a Cabo Frio. No seu entorno existiam mais de 120 salinas, produzindo milhares de toneladas de sal por ano. Esse ciclo é o mais significativo da nossa história. Começou ainda no período colonial e só entrou em declínio por volta das décadas de 1960 e 1970”, afirmou Acioli.

Dois séculos depois, em 1824, Dom Pedro I concedeu ao alemão Luís Lindenberg a autorização para industrializar os negócios do sal. A Salina Grande, a primeira indústria salineira do país, instalada na região do Peró, foi criada neste momento e, durante séculos, o “ouro branco” da lagoa garantiu sustento e prosperidade, marcando profundamente a identidade cabo-friense.

Salina Grande. Foto: Arquivo / Mario Werneck

Do sal ao sol: o turismo muda tudo

A transformação do turismo em uma atividade econômica associada a Cabo Frio vem depois, a partir da década de 1960. A mudança foi anunciada de forma visionária, nesse mesmo período, pelo poeta Victorino Carriço que, ao compor o Hino Cabo-friense, escreveu:

“Forasteiro, não há forasteiro,
Pois nesta terra todos são iguais”

Aquele era um momento de declínio das salinas, e a chegada de uma visitante importante mudou tudo. Segundo Acioli, não foi só o território de Búzios — nesse momento ainda distrito de Cabo Frio — que foi lançado ao mundo com a chegada da atriz francesa Brigitte Bardot à Região dos Lagos.

“O primeiro boom de fama de Cabo Frio para o turismo foi com a chegada de Brigitte Bardot, que colocou a Região dos Lagos no mapa internacional. Na época, Búzios ainda era uma vila de pescadores pertencente a Cabo Frio. Então, os jornais diziam que ela estava em Cabo Frio, em uma vila de pescadores de Cabo Frio chamada Búzios”, explicou o historiador.

Ainda segundo o historiador, o segundo marco foi em 1974, com a inauguração da Ponte Rio-Niterói, que abriu caminho para milhares de visitantes e impulsionou o turismo definitivamente. Desde então, o mar, o vento e as belezas naturais da cidade passaram a ser não apenas símbolo, mas também sustento para a população.

Entre o passado e o futuro

De lá pra cá, muita história e visitantes percorreram a terra amada de Victorino Carriço. Hoje, Cabo Frio completa 410 anos como uma cidade vibrante, que ainda encanta pelas noites claras, o luar famoso e o mar bravio. E, assim, o município segue escrevendo sua história — e tentando lidar com o desafio de preservá-la.

“Cabo Frio foi uma das primeiras cidades do Brasil com o título oficial de cidade. Deveríamos ter nossa história mais valorizada e nosso patrimônio mais preservado. É uma data de alegria, mas também de reflexão sobre o quanto ainda precisamos cuidar da nossa memória”, conclui o historiador Acioli Junior.

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