HomeAraruamaTurismo e Lagoa de Araruama: uma relação conflituosa

Turismo e Lagoa de Araruama: uma relação conflituosa

A exploração desordenada do turismo é uma das principais causas de poluição da laguna. Porém, com a prática de esportes e a preservação ambiental, o setor pode ser fomentado para trazer benefícios à região.

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“Por serena lagoa banhada
Nossa Aldeia querida se ergueu;
Foi e sempre será confiada
A São Pedro que o nome lhe deu”

O hino de São Pedro da Aldeia retrata o nascimento da cidade através das águas cristalinas e da faixa de areia branca da Lagoa de Araruama. Essa característica não é exclusiva da cidade de São Pedro, mas se estende para a história de toda a Região dos Lagos. Nas margens da laguna, as cidades se desenvolveram por meio da pesca e da exploração salineira.

Com a pavimentação das estradas na década de 1960, o acesso à Região foi facilitado, sobretudo após a criação da CCR Via Lagos em 1996, que liga as cidades da região à capital Rio de Janeiro. A mobilidade promovida pelas melhorias na infraestrutura urbana incentivou um crescente fluxo de turistas e promoveu o desenvolvimento do setor.

As atividades econômicas da região, como a pesca, a exploração do sal e a extração de conchas, cederam espaço para a movimentação turística nas cidades. Os feriados prolongados, o verão, as ações de fim de ano são atrações que duplicam o número de habitantes, principalmente nas áreas de praias da Região dos Lagos, que ficou conhecida pelo cenário da prática de esportes e lazer.

Com o crescimento demográfico, a Lagoa de Araruama sofreu alterações significativas em seu estado natural, principalmente por conta dos efluentes domésticos que passaram a ser despejados nas águas da laguna, influenciando na degradação marinha e até mesmo nas atividades turísticas.

A bióloga e doutora em Ecologia Adriana Saad conta que, antes da concessão para tratamento de esgoto, a lagoa recebia o despejo do material in natura. O ecossistema entrou em colapso com o aumento dos níveis de fósforo e nitrogênio, efeito conhecido como eutrofização, o que levou o oxigênio a quase zero e prejudicou a balneabilidade da água, a pesca e as atividades de lazer.

Em 1998, foi concedido às empresas Prolagos e CAJ (Concessionária Águas de Juturnaíba), selecionadas através de um concurso público internacional, o direito à administração e operação dos recursos de saneamento mais especificamente, ao tratamento de água e de esgoto.

As cidades de Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia ficaram sob responsabilidade da Prolagos, enquanto as cidades de Araruama, Saquarema e Silva Jardim estão na área da concessão da CAJ. Adriana explica que “a qualidade da água começou a melhorar, com a ajuda das dragagens do canal, o funcionamento das ETE’s (Estação de Tratamento de Esgoto) e a construção do cinturão de captação de esgoto na Lagoa”.

Para minimizar os efeitos da poluição de maneira rápida, foi implantado o modelo de esgotamento conhecido como sistema de tempo seco. Esse método foi eficaz para garantir a sobrevivência do ecossistema lagunar, contudo, nos períodos de chuva forte o esgoto transborda para a laguna junto com a água da chuva.

Para a guia de turismo e especialista em gerenciamento socioambiental Vivian Pelka a poluição ainda hoje é um dos maiores problemas da Lagoa de Araruama do ponto de vista turístico, e traz ainda o impasse da desvalorização da laguna. “A própria população aqui é distorcida com relação aos valores da lagoa. São poucas as pessoas que têm o conhecimento do quanto a lagoa vale. Isso independente de característica cultural e de formação” afirma Vivian.

O som das águas deslocadas pelos remos é característica marcante do esporte que Bruno Dias escolheu como atividade. Ele é praticante de canoa havaiana há mais de oito anos, e fez do esporte sua profissão há cinco. O atleta conta que a maior dificuldade em praticar o esporte na laguna é a poluição. “Quando não tem chuva a água fica bem legal, então, assim, maior dificuldade para mim é a parte da água. Eu vejo que a galera comenta e se preocupa com isso” explica.

A bióloga Adriana Saad também é secretária executiva do Consórcio Intermunicipal Águas de São João, que une a sociedade civil, o governo e os empresários da Região visando à promoção de uma gestão compartilhada dos recursos naturais. Ele afirma que atualmente há 50 pontos de lançamento de esgoto onde ainda não há o cinturão. Desses 50 pontos, 33 estão na área da concessão da Prolagos.

Notam-se melhorias significativas em relação ao tratamento de esgoto. Após vinte anos de concessão, o índice de esgoto tratado foi de praticamente zero a quase 80%. Porém, a poluição das águas ainda é um problema ambiental recorrente, em alguns casos por conta de moradores que ainda descartam seus efluentes e resíduos sólidos diretamente nos corpos hídricos, o que reduz gradativamente a qualidade da água e influencia diretamente nas atividades econômicas e comerciais a serem desenvolvidas.

Além disso, durante os períodos de alta temporada, a população aumenta exponencialmente. Segundo o site da CCR Via Lagos, em picos de verão e feriados a média de carros que passam pela rodovia vai de 19 mil veículos (média normal) para 58 mil veículos. Junto ao crescimento populacional, ocorre também o aumento dos efluentes e dos resíduos. A falta de consciência de muitos turistas também é outro fator que contribui para a poluição da lagoa.

Mas como manter um desenvolvimento econômico sem menosprezar a parte natural da região? Como administrar o setor turístico que tanto fez pela região visando também à preservação do ambiente lagunar?

A resposta pode ser simples: investindo no ecoturismo. Esse segmento de atividade turística busca utilizar os recursos naturais de maneira sustentável e com consciência, tanto para os turistas quanto para os moradores fixos da região, propondo a diminuição dos impactos no ecossistema local.

Vivian explica que “o ecoturismo é uma prática que qualquer pessoa pode fazer, desde que ela tenha consciência de que vai estar no meio natural e que vai usufruir daquele meio natural sem desconstruir”.

Junto ao ecoturismo, o turismo de aventura também ganha destaque nesse cenário. Aproveitar os pontos turísticos de maneira inusitada e até envolver a prática de um esporte pode resultar em benefícios para a economia. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, o Brasil é o país com maior potencial para o ecoturismo e o turismo de aventura no mundo. E, segundo o Ministério do Turismo, 19% dos turistas que visitam o Brasil buscam o ecoturismo e o turismo de aventura.

Com alto grau de emoção, os esportes ecológicos promovem uma vida saudável com o mínimo de impacto sobre a natureza, proporcionando um contato mais íntimo com o meio ambiente e permitindo o conhecimento e a contemplação de novas áreas e paisagens.

Arvorismo, trilhas, escalada, cavalgada, mergulho, canoagem, windsurf e kitesurf são alguns exemplos de atividades relacionadas ao turismo de aventura. Nesse aspecto, a Lagoa de Araruama possui localização privilegiada e é considerada uma das melhores raias do Brasil para a prática de esportes.

Antonio Cunha é praticante de windsurf há quarenta anos e explica que os ventos da Região dos Lagos são propícios para a realização da modalidade. “Dava até para fazer um turismo internacional aqui, porque condição de onda, de vento, de lagoa, para tudo que é velejo, não tem lugar no mundo igual ao nosso”. Ele ressalta a importância econômica da exploração do esporte como fator turístico. “A gente poderia ter um turismo de windsurf como tem em Jericoacoara, como tem no Nordeste, São Miguel do Gostoso. Trazer dólares para Cabo Frio”.

Para inserir o ecoturismo e o turismo de aventura na Lagoa de Araruama, Vivian destaca que “a valorização tem que vir de projetos políticos, e a sociedade civil também pode se organizar”. Ela também ressalta a importância do poder público nesse processo. “Essa questão do turismo sustentável, do ecoturismo, e do turismo de aventura, isso tem que partir ou de associações ligadas a essas áreas ou é uma questão de política pública, porque por mais que a sociedade civil organizada tente fazer algo, certamente em algum momento ela acaba precisando do poder público”, afirma.

Matéria escrita pelas alunas Gabriele Pereira e Júlia Machado do curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida (Campus Cabo Frio), supervisionada pela Professor Fábio Cadorin *

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