O último dia do Defeso de Peixes na Lagoa de Araruama foi de expectativa e muito trabalho para os pescadores. Durante toda a terça-feira (31), o pier da Praia da Pitória, em São Pedro da Aldeia, serviu de cenário para eles arrumarem suas redes, barcos e equipamentos. Sorridentes, conversavam com alegria e esperança, pois, em poucas horas, terminaria o período de proibição de pesca que dura três meses e as redes poderiam voltar a ser postas em toda a extensão da maior laguna hipersalina do mundo. E como esse período é de reprodução das espécies, naturalmente, a laguna renasce, e os homens do mar sabem disso. E sabem também que existe uma cadeia produtiva que depende da pesca: fábricas de gelo, lojas de acessórios para a pesca, empresas de transporte, e manutenção de motores e embarcações e dezenas de famílias que vivem direta ou indiretamente da pesca da Lagoa de Araruama.
Por volta das três da tarde, restava um único barco. Dentro dele, um senhor descalço, de cabelos brancos, chapéu e blusa azul para proteção do sol e com uma bermuda cinza, conferia cada costura da rede. Sentado com as redes entre as pernas, seu Evaldo da Rocha Guimarães, 77 anos, passa a imagem de quem está no melhor lugar do mundo. Sorridente, de conversa fácil, conta que é filho e pai de pescador. Entre uma conversa e outra, uma citação bíblica como demonstração de fé para o primeiro dia da pescaria que se aproxima. E claro, a esperança de retornar com o barco cheio de peixes.
“Eu levei uns 40 dias morto. Sem ver luz, sem ver nada. Treva pura. Estava entubado mas, na hora certa, Deus me tirou de lá. Eu tenho um testemunho forte. Lá não tinha nem ar pra respirar”, relembra os dias mais difíceis vividos nos últimos anos. Seu Evaldo, ou como é chamado pelos amigos, Lobo do Mar, teve Covid-19 em 2022. Precisou ser internado e entubado para o tratamento no Hospital Fiocruz, no Rio de Janeiro. Por isso, o dia de hoje foi tão especial para ele. O retorno do defeso é também um momento de comemoração, e esta foi a primeira vez que seu Evaldo sairia para pescar após a maior batalha pela vida.
“Olha, tudo que estou te contando não é história de pescador. Eu renasci! Foram 40 dias entubado e três meses de fisioterapia. Tive duas infecções, 75% dos pulmões comprometidos. Foi milagre de Deus. Hoje estou indo para encontrar meu filho, Chico Pescador, dentro da lagoa para pescarmos em parceria, festejando o fim do defeso”, comemora o Lobo do Mar.

O Renascimento
Histórias de renascimento têm muita ligação com a própria história da Lagoa de Araruama e seu Evaldo confirma.
“Eu vi essa lagoa morta. Sem peixes. Quantas vezes colocamos o barco na água e voltamos pra casa sem nada, apenas com a esperança de que a lagoa renascesse. Imagino que o mesmo sentimento tiveram meus filhos em me ver naquela situação, sem poder fazer nada, apenas confiando em Deus”, relata com os olhos marejados, mas com um persistente sorriso no rosto.
“No ano 2000 não tinha nenhum peixe e eu tinha um bocadinho de rede. Em casa eu não tinha uma prata, não tinha 200 reais no bolso, nem pra comprar um pão. Eu sou pescador, não faço mais nada. Aí Deus me disse assim: “desce lá pra área de serviço, escolhe o teu material mais insignificante que você tem na sua mente e vai pescar”. Quando cheguei ali, não tinha ninguém pra ir comigo, aí meu irmão ficou com pena de mim e disse: “nós não estamos pescando nada, não tem nada”. Foi aí que eu respondi: mas agora é outra coisa, estou a mando do meu Deus, Ele me mandou ir, eu tinha que ir.”
Sem tirar os olhos e as mãos da rede, seu Evaldo continua relembrando do episódio com riqueza de detalhes e conta que, mesmo desconfiado, seu irmão o acompanhou.
“Não podia dar errado, eu fui obedecendo a Ele. Quando o sol foi declinando, caindo a tarde, meu irmão queria voltar para a terra, pois não tinha como ver o fundo da Lagoa, por causa da cor escura, mas eu estava confiante e sabia que teria um sinal. Nesse momento saiu um peixe pequeno. Ele pulou mais ou menos um metro e meio de altura. Aquele peixe saiu com uma claridade tão grande que eu sabia que era um sinal. Aí eu mandei meu irmão jogar a rede e fui cercando. Cerquei aquele clarão todinho e quando acabei, meu Deus falou assim, puxa a rede pra dentro. Lembro do meu irmão dizendo: ‘você tá ficando doido’. Nós tínhamos acabado de cercar, não daria tempo. Aí quando ele puxou um pouquinho assim de dois metros, tinha trinta peixes. Ele olhou sem acreditar. Eu comecei a rir e gritei ‘agora você tá obedecendo, né?”, relembra seu Evaldo com um sorriso no rosto.
A história narrada por seu Evaldo se refere ao período após o colapso que a Lagoa de Araruama sofreu devido aos impactos ambientais provocados pela ausência de coleta e tratamento de esgoto, a partir do aumento da população da Região dos Lagos no início dos anos 1990.
O professor e biólogo Eduardo Pimenta conta que, à época, a tomada de decisão para o futuro da Lagoa de Araruama foi mais rápida e certeira.
“A lagoa estava em colapso. A produção de algas contribuiu para mais poluição. Sem oxigênio, mortandade de peixes, a balneabilidade das praias lagunares comprometidas, impacto no turismo, na atividade pesqueira, algumas medidas precisavam ser tomadas. Entre as primeiras, foi a privatização dos serviços de tratamento de água e esgoto, depois foram traçadas metas para alcançar a despoluição de todo corpo lagunar, “ comentou o professor.
“Quando a Prolagos assumiu os serviços de saneamento nas cidades da nossa área de concessão, em 1998, todo o esgoto in natura era despejado na Lagoa de Araruama e nas praias. A maior laguna hipersalina em estado permanente do mundo estava em avançado estado de degradação ambiental. Para ajudar na sua recuperação, a sociedade civil organizada solicitou a mudança do contrato, antecipando os investimentos em esgoto e aderindo ao sistema de captação a tempo seco, onde o esgoto que corre pela drenagem pluvial é desviado para coletores e o resíduo transportado para as estações de tratamento, retornando para o meio ambiente dentro dos padrões ambientais. A mudança aprovada foi a solução mais rápida e assertiva da sociedade, porque se fossemos aguardar a implantação do sistema Separador Absoluto, comprometeria de forma irremediável a recuperação da lagoa”, relatou o diretor executivo da Prolagos, José Carlos Almeida, em entrevista ao Portal Fonte Certa em 2022.
Cenário é animador: 85% das praias lagunares estão próprias para banho
Pela primeira vez duas praias lagunares vão receber o selo Bandeira Azul, que atesta a balneabilidade da água e do turismo sustentável, por exemplo. Além desta notícia, uma outra ainda mais animadora: 85% das praias lagunares estão em boas e ótimas condições de balneabilidade.
“Isso é o monitoramento do comitê, o monitoramento das concessionárias, o monitoramento do INEA dizem isso. Essa cadeia produtiva setorial pesqueira gera mais de 7 mil empregos diretos e indiretos. Então, isso contribui para a economia da região, para a segurança alimentar e para a inclusão social”, relata Eduardo Pimenta.
“Ter uma água com qualidade é um dos itens mais importantes para a certificação e o saneamento básico é fundamental para que isto aconteça. Mas para que pudéssemos celebrar cinco praias com o selo na nossa área de atuação, foi necessário muito trabalho e investimento. Quando assumimos a concessão, não havia coleta e tratamento de esgoto. Em 25 anos, conseguimos construir um cinturão que hoje protege praias lagunares e oceânicas e alcançamos a marca de 80% do esgoto coletado na região. A conquista deste selo traz um desafio ainda maior para nós da concessionária que diariamente apoiamos nessa continuidade e evolução dos altos padrões de qualidade ambiental”, comenta Pedro Freitas, diretor-presidente da Prolagos. Vale lembrar que, além do selo inédito para as praias dos Ubás, em Iguaba, e para a Pedra de Sapiatiba, em São Pedro, as cidades de Cabo Frio e Búzios, área de concessão da Prolagos, também receberam o Selo Bandeira Azul.

Produção pesqueira
Através do Projeto Imersão, a Prolagos e a Universidade Veiga de Almeida (UVA), campus Cabo Frio, fazem o monitoramento da Lagoa de Araruama. O município com maior produção é São Pedro da Aldeia com 117.638 kg, seguido de Cabo Frio com 39.346 kg, Arraial do Cabo com 39.260 kg e Iguaba Grande com 34.171 kg. Entre as espécies capturadas, as que apresentam a maior abundância são Tainha (65.206 kg), Perumbeba (58.810 kg), Carapeba (56.202 kg), Camarão-rosa (39.751 kg) e Carapicú (4.409 kg).
Defeso termina à meia noite
Apesar dos pescadores terem dedicado o dia para preparar as embarcações para voltarem às suas atividades, as redes só podem ser colocadas na laguna após a meia noite. Seu Evaldo até convidou a reportagem para acompanhá-lo na pescaria que vai acontecer na madrugada, mas ficamos em terra firme torcendo para que ele e os bravos pescadores da Lagoa de Araruama retornem com os barcos cheios de peixe – uma prova viva do renascimento de um dos nossos maiores berçários de vida da Região dos Lagos.


