“Quando começa a gelar, a tainha ovada aparece”: período de ovas enriquece gastronomia e é oportunidade para fortalecimento da economia local

Pesca tradicional envolve centenas de pescadores na Lagoa de Araruama. Foto: Luciano Motta/ Fontecerta.com

Todos os anos, as comunidades pesqueiras da Região dos Lagos aguardam a temporada das tainhas. Natural do Uruguai, da Argentina e do Rio Grande do Sul, entre novembro e julho, o peixe visita os mares e lagunas da região, à procura de águas mais quentes para o período de desova, que acontece a partir de março – quando chega o outono. Segundo Ricardinho, pescador de São Pedro da Aldeia há 44 anos, para saber o melhor período das ovas é preciso saber a máxima: “Quando começa a gelar, a tainha ovada aparece” – e o período da ova vai de março até o final de julho.

Batizado José Ricardo de Souza, o pescador conta que foi iniciado na pesca aos 10 anos de idade e seu pai o ensinou a aproveitar todas as partes do peixe. As espécies mais rentáveis e procuradas da região, ele aprendeu com o tempo; e, durante a jornada, estabeleceu-se como um dos vendedores e exportadores de ovas de tainha em São Pedro da Aldeia.

“A ova sempre foi uma iguaria nas casas dos pescadores da região e foi aparecendo no mercado com o tempo.”, conta Ricardinho.

Procuradas nacional e internacionalmente, as ovas de tainha são consideradas o caviar brasileiro. Longas e avermelhadas, a iguaria costuma aparecer em par e são uma verdadeira atração no comércio pesqueiro das regiões conhecidas pela pesca da espécie. Através da ova, os restaurantes preparam a bottarga – ou muggine, em italiano – uma especialidade culinária encontrada em vários países do mediterrâneo, que se expandiu para o Brasil devido a passagem anual da tainha pelo Sul e Sudeste.

Curada ou in natura, a ova agrega valor e compõe uma variedade de pratos: a bottarga – quando curam e secam a ova ainda com a membrana que a protege – e o tempurá são alguns deles, mas elas também podem ser fritas e assadas. Na Região dos Lagos, assim como a própria tainha, as suas ovas ganham, ainda, o sabor naturalmente salgado das águas com alto teor de sal da Lagoa de Araruama, onde elas repousam até o início da desova. Ali, o peixe se torna ainda mais especial.

Eduardo Pimenta, coordenador do grupo de Estudos da Pesca da Universidade Veiga de Almeida (GEPesca), atrela o sucesso do peixe e suas ovas à recuperação da Lagoa de Araruama, iniciada nos anos 2000.

“A Lagoa de Araruama possui um dos cases de maior sucesso de recuperação de bacias hidrográficas do Brasil. Ela colapsou nos anos 90 e começou a ser recuperada em 2000, e, depois de 24 anos do início da recuperação, hoje, conquistou a terceira praia com Certificação Bandeira Azul e 85% das suas praias estão em boas condições. A partir do momento que o ecossistema da lagoa alcançou um bom índice de recuperação, a produção pesqueira melhorou bastante, principalmente da tainha. Só entre 2022 e 2023, houve um acréscimo significativo de 26% na pesca da lagoa.” explicou o professor e biólogo.

Segundo pesquisas realizadas pelo grupo de Eduardo, a tainha promove a maior movimentação da atividade pesqueira da Região dos Lagos e chega a movimentar mais de R$3 milhões apenas na primeira venda do peixe, realizada pelos pescadores artesanais da lagoa. Com as vendas intermediárias – dos restaurantes e peixarias – o valor pode aumentar consideravelmente, principalmente sobre as ovas, que, na região, chegam a custar R$100 o quilo.

Benefício a economia local

Ricardo conta que, quando a temporada está próxima, os restaurantes da região e de fora entram em contato. Por enxergar o grande potencial da ova, ele sempre realizou a sua venda na Região dos Lagos e, quando surgiu a oportunidade, foi atrás do Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) que o permitiu realizar vendas seguras e dentro dos parâmetros estabelecidos pela pesca artesanal.

“Hoje, para vender esse peixe pra fora, nós precisamos estar preparados para apresentar o RGP, que é o Registro Geral de Pesca, que identifica quem é o pescador e arte de pesca, se você está autorizado ou não a exercer aquela atividade [entre] outras coisas. Então, não é tão fácil você hoje comercializar o pescado fora da região, porque ninguém está preparado com nota, com registro, para poder mandar para fora. Por isso, eu busquei fazer uma nota do produtor, se não, eles não recebem esse produto e a fiscalização pode barrar no caminho.”, explicou o pescador.

Na última semana, o pescador foi procurado por restaurantes nordestinos e só conseguiu enviar o produto graças ao registro. Dentro do estado do Rio de Janeiro, o processo é o mesmo. Ricardo tem uma parceria de fornecimento das ovas para o Sargo Restaurante, localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro, e, para ele, o registro torna esse trabalho mais profissional.

Apesar da garantia e segurança para as vendas, Ricardo conta que nem todos os pescadores da Lagoa de Araruama possuem o registro e, por isso, o foco das vendas concentra-se no mercado local:

“Na região, São Pedro da Aldeia é o município que mais produz pescado de tainhas na Lagoa de Araruama, mas poucos pescadores se dedicam aos mercados de fora e a venda das ovas. Eles focam na carne do peixe e no mercado local. Eu trabalho diferente; venho trabalhando essa questão da cadeia produtiva, como a gente fala, para aproveitar todas as oportunidades que aparecem. Hoje, acho que a nossa classe não dá muito valor e não enxerga o potencial [da exportação]. Mas tem muito.” contou Ricardo.

Pescadores artesanais não buscam comércio externo

As exportações da pesca da região são dominadas pela indústria, o que faz com que o senso comum não relacione o processo comercial com a pesca sustentável e as buscas dos pescadores artesanais pelo mercado externo sejam baixas. Em São Pedro da Aldeia, Ricardinho tenta mostrar à população que o pescador artesanal pode tomar conta de todas as etapas do trabalho, que envolve pesca, tratamento e comercialização do pescado.

“Eu respiro pesca. Vivo disso e, por isso, acho que a gente tem que ter limite para tudo. Na minha trajetória, eu fiz parte da fundação da Associação de Pescadores da Praia da Baleia e, a partir disso, a minha relação com a pesca se voltou muito para o sustentável e para a busca da melhora da nossa cadeia produtiva, para agregar mais valor ao nosso produto. Em 2017, eu e um amigo lideramos um projeto e conseguimos certificar a Tainha, através da conservação internacional. Isso mostra que a gente consegue ir atrás dessa comercialização maior respeitando a natureza. Eu vejo a pesca dessa forma e espero que o nosso povo também consiga enxergar isso.”, explicou o pescador.

Ricardo espera que, com a inauguração do Centro de Beneficiamento da Pitória, inaugurado no último dia de maio, os pescadores passem a tomar conta de todos esses processos. Segundo a Associação de Pescadores Artesanais da Praia da Baleias, a unidade ainda não está sendo utilizada pelos pescadores, mas deve entrar em funcionamento ainda neste mês.

Benefício social

Apesar dos pescadores não focarem muito na comercialização das ovas, a temporada de tainha promove um benefício que vai além do econômico: o social. Atualmente, o GEPesca acredita que mais de 1.200 famílias são beneficiadas e que, há cada um emprego direto, outros quatro empregos indiretos são gerados pela atividade pesqueira da Lagoa de Araruama. De acordo com Pimenta, o emprego direto é o pescador pescando dentro da água, e os indiretos estão relacionados a cadeia produtiva do pescado.

“Ao todo, estimamos que mais de 7 mil empregos diretos e indiretos são gerados na cadeia produtiva e setorial pesqueira da Lagoa de Araruama”, informou Eduardo, líder da pesquisa.

Preço atual e estoque no período de defeso

No fim da temporada, com a tainha voltando à região Sul do país, a não expansão do mercado faz com que os preços do peixe e suas ovas caiam na Região dos Lagos, pois o comércio é abastecido pelo pescado da Lagoa de Araruama e pelo estoque vindo do Sul, que abastece os municípios no período de defeso da espécie. Neste momento, as ovas da tainha são encontras a R$70 e o peixe a R$6. Os preços devem voltar a subir ao final da temporada, que acontece no fim de julho.

Uma questão de safra

Não há acompanhamento sobre as ovas da tainha, mas a safra do peixe é contabilizada todos os anos desde 2021. Em 2023, segundo o monitoramento do Grupo de Estudos da Pesca da Universidade Veiga de Almeida (GEPesca), a quantidade de tainhas pescadas na por pescadores aldeenses revelou um acréscimo de 121% comparado com o volume do pescado de 2022. Neste ano, os dados quantitativos da pesca serão contabilizados após a temporada, que será finalizada oficialmente no fim de julho.

No entanto, o comentário é que durante a temporada de tainhas deste ano, os peixes vieram diferentes. “Nós pegamos peixes de 4kg nesta temporada”, comentou Paulo César, conhecido como Azeredo, em São Pedro da Aldeia.

Acostumado com a pesca de tainhas na Lagoa de Araruama, que percorre grande parte da Região do Lagos, o pescador de 39 anos de profissão afirmou estar com boas expectativas para avaliação da safra deste ano e, neste mês, já começou a se preparar para finalização da temporada do peixe de maior produção do município aldeense e de maior rentabilidade da Região dos Lagos.

Atual presidente da Associação de Pescadores Artesanais da Praia da Baleia, ele acompanha o monitoramento da safra de cada ano e, em função do crescimento do peixe neste ano, já espera que a temporada supere a quantidade de 104 toneladas de tainhas pescadas em São Pedro da Aldeia, no ano de 2023.

FacebookWhatsAppTelegramXThreads