Um rosto ferido por uma madeirada em plena praça pública; uma mãe ameaçada com uma faca enquanto protege a filha de dois anos nos braços; um menino de 11 anos que agradece aos guardas como se agradece a um milagre. As cenas, tão cruéis quanto reais, aconteceram em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia durante o mês de maio, escancarando a ferida ainda aberta da violência contra a mulher na Região dos Lagos.
No Centro de Cabo Frio, uma discussão banal em uma mesa de sinuca terminou em covardia. Uma mulher foi brutalmente agredida no rosto com um pedaço de madeira. O crime aconteceu em plena luz do dia, diante de populares, que conseguiram deter o agressor até a chegada da Patrulha Maria da Penha. A vítima, que recebeu atendimento médico e psicossocial, ainda se recupera do trauma. Já o agressor foi preso em flagrante.
Em São Pedro da Aldeia, a violência bateu à porta — ou melhor, foi aberta por uma criança. Um homem ameaçava a companheira com uma faca enquanto segurava a filha pequena nos braços. O filho mais velho, de apenas 11 anos, conseguiu abrir a porta para os guardas municipais e, em lágrimas, disse: “Vocês são meus anjos. Muito obrigado”. A mulher revelou que já teve uma medida protetiva contra o companheiro, hoje arquivada, e que ainda vivia sob dependência emocional.
Esses episódios não são exceções. São retratos de uma realidade enraizada, que resiste ao tempo e à legislação. Para a delegada Flávia Monteiro de Barros, titular da delegacia de Búzios, romper o ciclo da violência ainda é o maior desafio. “Vejo diariamente o quanto é difícil para as vítimas romperem com esse ciclo. Muitas têm medo, vergonha ou dependem financeiramente do agressor. Mas o silêncio protege o agressor. Denunciar é o primeiro passo para quebrar o ciclo e salvar vidas”, afirma.
Segundo Flávia, o aumento dos registros não indica necessariamente que os casos cresceram, mas que mais mulheres estão tendo coragem para pedir ajuda. “Isso precisa ser incentivado. A rede de proteção existe e funciona quando acionada a tempo. Temos a DEAM, a Patrulha Maria da Penha, delegacias, medidas protetivas que saem em até 48 horas. O apoio precisa vir de toda a sociedade”, ressalta.
Um exemplo de justiça finalmente alcançada foi o julgamento do assassinato da turista argentina Florencia Aranguren, em Búzios. Em abril, o júri popular condenou Carlos José de França a 33 anos de prisão em regime fechado pelo crime ocorrido em dezembro de 2023. O juiz Danilo Marques Borges classificou o ato como intencional, premeditado e cruel, com “culpabilidade acentuada” e “ausência de qualquer motivação minimamente humana”.
Florencia, de 31 anos, foi brutalmente atacada com facadas e pauladas enquanto caminhava com seu cachorro por uma trilha. Seu corpo foi encontrado com o cão ainda ao lado. O assassino já possuía histórico de estupro e roubo. Para o coletivo Frente Feminista de Búzios, a sentença foi um passo importante: “A gente sabe que 33 anos não devolve a vida da Florencia, mas essa pessoa nunca mais vai machucar ninguém”, declarou Yanieska Genaro, que acompanhou na época o julgamento.

Na ponta do acolhimento diário, uma das principais forças da rede de apoio é a Patrulha Maria da Penha de Cabo Frio, regulamentada em março de 2023 e hoje referência na região. De janeiro a maio de 2025, a patrulha recebeu 659 ocorrências. Destas, 268 mulheres seguem sendo acompanhadas de forma ativa pela equipe. “Nosso trabalho vai além da fiscalização e das medidas protetivas. Envolve escuta ativa, acolhimento e orientação. Atuamos com visitas regulares, monitoramento constante e diálogo direto com o Judiciário e o Ministério Público”, explica a inspetora Regiane Costa, coordenadora da Patrulha.
A patrulha atua 24 horas por dia, todos os dias da semana, e foca especialmente em bairros com alta incidência de violência, como Centro, Vila Nova, Algodoal, Praia do Forte e Tamoios. Além do atendimento emergencial, promove rodas de conversa, palestras e ações educativas.
A delegada Flávia Monteiro também mantém um canal direto com as vítimas por meio do Instagram (@delegadaflaviamonteirodebarros), onde oferece orientações e acolhimento. “A mulher não está sozinha. A denúncia é um ato de amor por si mesma e uma forma de proteger outras mulheres que podem estar na mesma situação”, conclui.


