A contratação às pressas de um show nacional para a virada do ano em São Pedro da Aldeia recolocou no centro do debate público uma das principais contradições da atual gestão municipal. Após anunciar, em março, a suspensão temporária de eventos de grande porte sob o argumento de priorizar áreas essenciais, o prefeito Fábio do Pastel autorizou o pagamento de R$ 525 mil para a apresentação da dupla Edson e Hudson no Réveillon 2026.
A decisão chamou a atenção não apenas pelo valor envolvido, mas pelo contexto. No dia 27 de março, a própria Prefeitura havia comunicado a suspensão de grandes eventos como estratégia para concentrar recursos em saúde, educação, infraestrutura e meio ambiente. À época, o anúncio gerou forte repercussão negativa nas redes sociais do município, com moradores cobrando alternativas como parcerias privadas e patrocínios para manter o calendário cultural sem sobrecarregar os cofres públicos.
Menos de nove meses depois, o discurso mudou. E o custo elevado do show sertanejo, contratado em cima da hora, passou a dividir a opinião da população. De um lado, moradores defendem a importância do lazer, do turismo e da movimentação econômica. De outro, cresce o questionamento sobre prioridades em uma cidade que enfrenta dificuldades crônicas na saúde pública e em serviços básicos.
Anúncio tardio e planejamento questionável
A programação oficial do Réveillon só foi divulgada na noite do dia 23 de dezembro, a apenas oito dias da virada do ano. Enquanto cidades vizinhas como Cabo Frio, Arraial do Cabo, Iguaba Grande e Araruama anunciaram seus eventos com antecedência, São Pedro da Aldeia manteve silêncio até a semana do Natal. O secretário de Turismo e Eventos, Rodolfo Jotha, afirmou que a programação foi pensada para atrair turistas e fortalecer a economia local. No entanto, a divulgação tardia limita o impacto econômico do evento, uma vez que hotéis, bares, restaurantes e o próprio turista precisam de planejamento prévio para aproveitar plenamente uma atração de porte nacional.
Embora a grade artística tenha sido tratada como incerta até os últimos dias, os gastos com o Réveillon já estavam assegurados. Conforme noticiado anteriormente pelo Fonte Certa, o município empenhou R$ 971.400,00 para a estrutura pirotécnica, por meio de Ata de Registro de Preços. O contrato inclui balsas, brigada de incêndio e fogos de artifício, garantindo oito minutos de espetáculo, mesmo quando ainda não havia confirmação pública de festa.
A Prefeitura justificou o atraso alegando dependência de uma parceria com o Ministério do Turismo para viabilizar as atrações. Ainda assim, o alto investimento em fogos e no cachê artístico reforça a percepção de que, apesar do discurso de contenção, os grandes gastos nunca estiveram fora de cogitação.
Entre o lazer e a prioridade social
A programação divulgada prevê início às 21h do dia 31, com DJ, seguida da cantora local Bruna Reis, às 21h30, e encerramento com Edson e Hudson logo após a virada, além da queima de fogos na Praia do Centro.
O debate, porém, vai além da festa em si. Ele expõe uma gestão que oscila entre o discurso da austeridade e a prática de investimentos elevados em eventos, algo que também foi observado no ano passado, período eleitoral, quando diversos shows de alto custo foram realizados mesmo sob o argumento de crise econômica.


