A busca por atendimento médico tem sido um desafio para moradores de São Pedro da Aldeia que necessitam utilizar o serviço público de saúde. Nesta terça-feira (28), a equipe do Portal Fontecerta.com foi ao Pronto-Socorro do município, no bairro Nova São Pedro, conferir de perto as denúncias de dificuldade de atendimento e encontrou o local lotado, com pessoas fazendo fila para fora da unidade, e passando por problemas recorrentes: demora no atendimento, poucos médicos de plantão e dificuldades de acesso a exames com especialistas.

Joyce Silva, de 37 anos, é uma das moradoras do município que relatam dificuldades. Preocupada com a dor nos rins, que vem sentido nos últimos dias, ela conta que chegou à unidade de saúde às 6h para a segunda tentativa de atendimento ao caso. “Eu cheguei eram 6h, são 9h agora e nada. E essa não é a primeira vez, eu também tentei vir ontem e não fui atendida. Ontem eu não estava me aguentando em pé, mesmo assim eu tive que ir embora sem atendimento. Agora eu voltei, falei com eles que estive aqui ontem pelo mesmo motivo e com a mesma dor, mas não adianta.”, afirmou a moradora de São Pedro da Aldeia.
Diante da situação, Joyce relembrou a morte de Jorge Carlos Machado Junior, de 44 anos, em 14 de maio, após dificuldades de atendimento e uma série de negativas para a realização de exames e internação. Ela afirmou que problemas como esses têm sido recorrentes.

“Todas às vezes que vim aqui, sempre deu esses problemas. Comigo, minha sogra e meu esposo. Hoje eu cheguei a conversar com uma moça que estava com secreção no pulmão. Ela falou que não estava aguentando mais, com muita falta de ar – como no caso. Eu até falei para ela, que daria a minha vez, devido ao problema dela ser desse jeito, mas ela conseguiu ser atendida primeiro”, contou, antes de finalizar falando que vai tentar procurar a saúde de Iguaba Grande caso não seja atendida hoje.
A paciente a qual Joyce se refere é a Ana Cláudia, que também chegou ao Pronto-Socorro às 6h e conseguiu ser atendida às 8h, após duas horas de espera. Com pneumonia, Ana contou à reportagem que deu sorte por esperar “pouco tempo” comparado a outros pacientes e que, apesar desta ser a maior reclamação, ainda há outros fatores que geram incômodo:
“Eu utilizo o serviço de saúde da cidade desde que nasci e dá para ver que a situação está difícil para todo mundo. Hoje só tem dois médicos atendendo e muito mosquito dentro da unidade. Então, está bem difícil. Poucos médicos, poucos funcionários, desconforto e a população em massa aí dentro. Assim, eu nunca tive muita dificuldade além do esperado, mas uma parente minha já teve que ir ao Fórum pedir uma ação judicial para receber uma transferência. É complicado.”, contou ao portal.
“O problema não é só no pronto atendimento”
Os relatos são muitos e os problemas vão além da demora no pronto atendimento. Aguardando a vez do pai ser atendido, que tem sofrido de um quadro febril devido à gripe, Patrícia Lemes contou que as dificuldades se alastram por todo o setor da saúde:
“O problema não é só no pronto atendimento. A saúde daqui de São Pedro da Aldeia é horrível. Tanto aqui, quanto no posto de saúde, é horrível. Eu estou tentando uma consulta de dermatologia há meses e não consigo, e há dois anos eu perdi a minha mãe por negligência. A gente recorreu a todo mundo por cerca de dois meses, secretaria de saúde e vereadores, por uma ressonância magnética. Eles falam que não têm recurso, mas não é. E o real motivo a gente não sabe”, afirmou a aldeense.
Ainda segundo Patrícia, a situação é tão extrema que os próprios profissionais reconhecem e chegam a alertar os pacientes: “Minha mãe estava precisando de internação no antigo Pronto-Socorro e, na época, a própria coordenadora de lá falou com a gente: não deixe sua mãe aqui, porque, se ela ficar, em menos de uma semana ela falece”, relatou, antes de dizer que a Secretaria de Saúde deveria tomar uma providência.
Emília Godoy, que teve o primeiro atendimento na unidade nesta terça-feira (28), contou que ficou decepcionada, pois voltou para casa com a prescrição de um remédio que não atende o seu caso de gripe. “Eu tô ruim, tô cheia de dor, e a médica só me passou um antialérgico. Como que eu volto para casa com minhas filhas todas doentes, assim? Se a gente vem aqui, a gente quer tomar medicamento para solucionar o problema, não para aliviar sintomas”, disse.

Ela também tenta atendimentos com especialistas, mas segue sem sucesso, assim como Patrícia. “Cara, eu digo pelos meus filhos que tem que ir ao pediatra e fazer outras consultas, a saúde aqui em São Pedro é bem precária. Agora eu moro aqui, mas na minha cidade de origem não era assim não. Para conseguir marcar um pediatra é horrível, um ginecologista também. Minha filha fez um ano e não consegui marcar ginecológica até agora”, contou.
Um senhor que passava pelo local e ouviu o depoimento de Emília afirmou que a história se repete com ele e que não consegue agendar consultas e nem acessar o serviço de farmácia popular para a filha de 15 anos, que sofre com epilepsia. “Tem um ano e meio que estou esperando uma consulta com psiquiatra e neuro para ela e até hoje não consegui nada e eu não tenho condições de pagar. A Secretaria de Saúde fala que tem que aguardar, manda aguardar o telefonema deles. Mas nunca liga. E fora isso, a farmácia, que era para ajudar a gente, não tem remédio nenhum. Tem que correr atrás para comprar os remédios, e se humilhar para pedir a receita que ela precisa, porque ela não pode ficar dois dias sem tomar remédio.”, relatou o homem, que ainda disse que a única solução para o caso parece ser a troca da gestão municipal.
Neste fim de semana, em nota ao portal Fontecerta.com, a Prefeitura afirmou que a unidade do Pronto-Socorro tem registrado um aumento significativo na procura por atendimentos, inclusive por parte de pacientes vindos de municípios vizinhos, mas que os atendimentos de saúde seguem sendo realizados. Segundo a prefeitura, os casos mais graves tem prioridade, conforme os protocolos estabelecidos.
Apesar da nota e diante da falta de respostas para as demandas apresentadas pela população nesta terça-feira (28), o Fontecerta.com realizou um novo contato com a prefeitura de São Pedro da Aldeia para entender os problemas da escala de médicos e marcação relatados à reportagem. O portal aguarda o retorno da administração municipal e, em caso de resposta, a matéria será atualizada.


