Filhotes de tubarão na Lagoa de Araruama indicam boa qualidade da água e não oferecem risco, afirmam biólogos

Especialistas explicam que dragagem do canal e chuvas recentes facilitaram entrada da espécie, conhecida como cação-rabo-seco

Foto: Reprodução/ Internet

Um misto de fascínio e apreensão tomou conta das redes sociais em Cabo Frio neste fim de semana. Em um intervalo de apenas 24 horas, dois filhotes de tubarão foram flagrados nadando tranquilamente no Canal do Itajuru e na Praia do Siqueira. Embora a cena tenha pegado moradores e pescadores de surpresa, especialistas trazem um veredito tranquilizador:  a presença dos animais é um bom sinal ambiental.

Identificados pelo biólogo Eduardo Pimenta como cação-rabo-seco, os animais são comuns nas áreas costeiras do estado do Rio de Janeiro e considerados inofensivos. Ele explica que a espécie possui focinho alongado, pode atingir até um metro de comprimento e, durante o verão, costuma se aproximar do litoral em pequenos cardumes. “Eles se aproximam mais da costa e, eventualmente, acabam entrando em canais, especialmente em períodos de maré enchente”, explica.

Ainda segundo Pimenta, não se trata de um comportamento atípico. Mudanças recentes na dinâmica hídrica da região, como o alargamento do canal e a dragagem da Lagoa de Araruama, aumentaram a circulação de água do mar para o interior da laguna, facilitando a entrada desses animais. Além disso, o biólogo e Secretário de Meio Ambiente de Cabo Frio, Jailton Dias, destaca o papel das chuvas recentes, que reduziram a salinidade da lagoa, quebrando a barreira química natural que geralmente afasta a espécie. “Com as chuvas torrenciais, a lagoa sofre uma baixa na salinidade. Isso propicia que animais e vegetais entrem na laguna porque não tem o que chamamos de barreira físico-química: a salinidade”, detalha Jailton.

Jailton também destacou que, mais do que um passeio acidental, a lagoa pode estar servindo como refúgio. Ele lembra que a região possui o Dormitório das Garças, o maior mangue da Lagoa de Araruama. ” Ele precisa se alimentar, se proteger de predadores, dormir. Então o mangue também propicia [a chegada desses animais]”, afirma o secretário.

Para o biólogo Henrique Abraão, os registros devem ser vistos como um indicador ambiental positivo. “Esse canal foi alargado, melhorando ainda mais a qualidade da água. É natural que esses animais cheguem próximo à laguna. Não é natural que eles entrem na laguna por ser hipersalina. É muito salgada pros tubarões, entende? Então eles podem chegar ali na beiradinha e tal, entrar para dentro um pouquinho só… mas, nada pra se preocupar. Pelo contrário: demonstra justamente a qualidade da água e a renovação, a oxigenação da água.”, explicou.

O mito da “mãe por perto”

Quando os registros começaram a viralizar, comentários como “Se há filhote, há mãe por perto” tomaram conta das publicações nas redes. No entanto, Eduardo Pimenta desmente esse mito.

“Animais de sangue frio, como os peixes, não criam seus filhotes. Não existe proteção parental”, disse Pimenta. Segundo ele, os filhotes já nascem independentes e seguem seu rumo sozinhos. Portanto, não há risco de haver tubarões maiores rondando a área por causa dos filhotes.

O que fazer ao encontrar um filhote de tubarão na Lagoa de Araruama?

Segundo Pimenta, os animais encontrados na lagoa são pequenos e não oferecem risco de ataque a banhistas. No entanto, o manuseio é desaconselhado. “Eles têm dentes afiados. Se tentar tirar do anzol ou pegar na mão, ele pode morder para se defender. Mas um exemplar daquele tamanho, não é um corte fatal”, alerta.

A recomendação final é de contemplação. “A melhor coisa é não manusear. Tira uma foto de longe e deixa o bichinho se desenvolver, ficar no estado maduro, procriar e ter nova gerações”, orienta Jailton Dias. Henrique Abraão complementa: “Pode tomar banho na Lagoa à vontade. É um sinal de que a biodiversidade está aumentando.”

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