Depois do registro inusitado de um pinguim-de-Magalhães nadando nas águas da Laguna de Araruama, em Cabo Frio, nesta quarta-feira (16), o que parecia apenas uma cena curiosa ganhou contornos de alerta ambiental. A presença do animal em um ambiente hipersalino acendeu o sinal vermelho para os riscos enfrentados por pinguins que chegam debilitados à costa da Região dos Lagos durante a temporada de migração.
O biólogo Eduardo Pimenta explica que, apesar de ser comum encontrar esses animais no litoral sudeste entre junho e setembro — período em que migram da Patagônia em busca de alimento e águas mais amenas —, a entrada deles na laguna representa uma ameaça à sua sobrevivência.
“A Laguna de Araruama tem uma ligação permanente com o mar, por meio da Boca da Barra no Canal do Itajurú, o que permite a entrada de animais durante marés enchentes. Mas ali dentro o ambiente é extremamente salgado e repleto de armadilhas, como redes de espera e currais de camarão. Isso torna a laguna um risco ainda maior para um pinguim já fragilizado”, alerta.
Nos últimos dias, as aparições se intensificaram. Somente entre 12 e 14 de julho, cerca de 30 pinguins foram encontrados ao longo da faixa litorânea da região, segundo o Instituto BW, que realiza o recolhimento e reabilitação dos animais. A maioria estava em estado crítico. Quatro deles foram encontrados mortos na Praia do Dentinho, em Araruama, e outro precisou ser resgatado pela Guarda Municipal de Cabo Frio na Praia do Forte, em meio aos banhistas.
Segundo Pimenta, o inverno rigoroso deste ano e a sucessão de frentes frias têm contribuído para o aumento no número de casos. “Estamos vendo uma frequência maior de encalhes do que no ano passado. Muitos desses animais se perdem do grupo, ficam doentes ou com hipotermia, e acabam chegando exaustos às nossas praias.”
A orientação para quem encontrar um pinguim fora do seu habitat natural é clara: não tocar no animal e acionar imediatamente o Programa de Monitoramento de Praias (PMP), vinculado ao Projeto Albatroz. O serviço realiza o resgate, avaliação veterinária e reabilitação sempre que possível.
Há casos de sucesso. Em 2023, oito pinguins reabilitados na região receberam chips de monitoramento via satélite e conseguiram retornar à Patagônia. “Isso mostra que, com atendimento rápido e adequado, eles têm condições de se recuperar e voltar para o seu habitat”, destaca o biólogo.
O que fazer ao encontrar um pinguim?
Especialistas reforçam que, embora esses encontros possam parecer encantadores, é essencial seguir algumas orientações para garantir a segurança dos animais e das pessoas:
- Não tente tocar, pegar ou molhar o pinguim. Mesmo debilitado, ele pode reagir ou sofrer ainda mais estresse.
- Afaste curiosos e mantenha a área isolada. O acúmulo de pessoas pode assustar ou machucar o animal.
- Não ofereça comida ou bebida. O organismo do pinguim pode não estar apto a digerir o que for oferecido.
- Alerte imediatamente os órgãos ambientais ou instituições como o Instituto BW ou o PMP do Projeto Albatroz.
- Se possível, ofereça sombra sem contato direto. Uma caixa de papelão com ventilação pode proteger do sol até a chegada do resgate.
A temporada de migração segue até setembro. Casos como o registrado na Laguna de Araruama reforçam a importância do monitoramento, da conscientização e do cuidado com a fauna marinha que visita a costa brasileira todos os anos.



