Com a chegada do inverno, os ventos fortes que atingem tradicionalmente a Região dos Lagos aumentam os riscos para atividades náuticas como o stand up paddle e a canoa havaiana, especialmente em áreas como Cabo Frio e Arraial do Cabo. O alerta ganha ainda mais urgência após o caso ocorrido na orla do Rio de Janeiro, no último fim de semana, quando rajadas arrastaram praticantes de stand up paddle para alto-mar, exigindo operação de resgate.
A prática dessas modalidades, que têm crescido exponencialmente, atrai tanto atletas experientes quanto iniciantes em busca de lazer e contato com a natureza. Mas, segundo especialistas, é justamente nesse crescimento desordenado que reside parte do perigo. “Há uma banalização do ensino no mar. Pessoas que fazem dois meses de aula já se veem no direito de comprar uma canoa e começar a dar aula, sem entender a dinâmica dos ventos, das correntes, da navegação segura”, alerta Américo Pinheiro Júnior, técnico da Seleção Brasileira de stand up paddle e coordenador da modalidade na Confederação Brasileira de Surfe. Ele também mantém uma escola de canoa em Arraial do Cabo e reforça que, diferente de esportes em quadras, atividades no mar exigem conhecimento técnico e, idealmente, formação em Educação Física e habilitação náutica.
Em sua rotina de treinos e aulas, Américo revela que evita ao máximo situações de risco com seus alunos de canoa havaiana. “São pessoas que usam a atividade como forma de cuidar da saúde, do corpo e da mente. Não faz sentido expô-las a ventanias ou correntes perigosas. O prazer precisa estar acima da adrenalina.”

Já Victor Guerson, presidente da Associação de Canoas Havaianas de Cabo Frio, detalha os protocolos seguidos por instrutores experientes. “Sempre verificamos os alertas da Marinha e avaliamos a previsão antes de cada saída. Quando há alertas de ventos muito fortes ou proibição expressa da Marinha, simplesmente não saímos. Só realizamos as atividades em condições seguras, com ventos de até 30, 35 km/h, que permitem navegar com controle total da situação”, explica.
Victor também ressalta que o planejamento das remadas inclui uma margem de segurança. “Se há previsão de entrada de vento forte, com duas ou três horas de antecedência, a gente já limita as saídas. É uma forma de evitar surpresas e garantir o retorno com tranquilidade.”
A escolha da rota é outro fator crucial para manter a segurança, segundo ele. “As canoas seguem trajetos planejados para que, mesmo com pouca experiência, e sempre acompanhados por um instrutor, os praticantes consigam fazer a atividade em áreas mais abrigadas, com segurança. O instrutor escolhe o melhor caminho, justamente para garantir uma prática segura e prazerosa”, pontua.


Para evitar mal-entendidos sobre o preparo dos participantes, Victor esclarece: “Antes de entrar na água, todo mundo recebe uma instrução básica sobre a remada, o movimento e a coordenação. A gente precisa que todos remem juntos para a canoa avançar corretamente. Então, não é como se colocássemos alguém totalmente leigo direto na embarcação. Há uma preparação mínima para todos”, explica.
Além dos cuidados com a meteorologia, o uso de coletes salva-vidas é obrigatório. Victor destaca que seus alunos têm entre dois e 85 anos, o que reforça a necessidade de cautela máxima nas decisões. “A gente só leva a canoa até onde a gente sabe que consegue trazer de volta.”
Previsibilidade e surpresas do tempo
Ambos os especialistas reconhecem que o mar pode surpreender mesmo os mais experientes. “Rajadas fora da previsão existem”, admite Américo, que diz já ter enfrentado situações inesperadas mesmo com anos de vivência. Ainda assim, a prevenção e a capacitação dos instrutores são apontadas como fatores determinantes para a segurança de todos.
Diante do episódio no Rio, os profissionais defendem mais fiscalização e não a simples proibição das atividades. “Suspender para reorganizar, tudo bem. Mas proibir de forma geral penaliza quem trabalha certo há anos”, pondera Américo.

