O tema da redação do Enem 2024, “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”, trouxe à tona um assunto relevante e atual, convidando os estudantes a refletirem sobre a importância das raízes africanas e os obstáculos para o reconhecimento efetivo de sua influência na cultura brasileira. A professora e historiadora Marcela Vázquez, pesquisadora e representante do movimento feminista negro na cidade de Rio das Ostras, destacou em entrevista ao Portal Fonte Certa, a relevância do tema ao contextualizar como a chegada de africanos escravizados moldou a estrutura social do país, marcada por racismo institucional e estrutural, elementos que ainda hoje limitam o acesso de pessoas negras a direitos e oportunidades.
Marcela observou que a escolha do termo “escravizados”, ao invés de “escravos”, reflete uma mudança de perspectiva histórica essencial para entender a imposição de uma condição desumanizadora e violenta sobre os africanos. “Os negros africanos não eram escravos, eles foram escravizados por um processo europeu de colonização. Esse é um ponto que precisa ser enfatizado para reconhecer como o racismo estrutural se originou e se perpetua”, explicou.
A historiadora também apontou a importância de acabar com o preconceito contra religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, que são expressões culturais afro-brasileiras frequentemente alvos de intolerância. Para Marcela, a implementação efetiva da Lei 10.639, que prevê o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, é um caminho para reverter o apagamento histórico e construir uma narrativa inclusiva e justa. Ela cita o samba-enredo da Mangueira, “História para ninar gente grande”, como referência simbólica para os estudantes: “É preciso contar a história dos excluídos, a história que a história oficial não conta”.
Para Tadeu Costa, estudante que prestou o Enem este ano, o tema proporcionou uma oportunidade de explorar a riqueza das contribuições africanas ao Brasil. Ele compartilhou que estruturou seu texto em torno das religiões de matriz africana e outras manifestações culturais urbanas afro-brasileiras. “Usei as religiões afro e manifestações culturais como pilares para discutir o cultivo e a expansão da herança africana. E, claro, falei da intolerância religiosa como o principal desafio”, relatou.
O tema da redação do Enem 2024 evidencia a necessidade de valorização da herança africana, abordando questões profundas que impactam o desenvolvimento de políticas públicas e a formação de uma sociedade mais inclusiva.


