Da caça à admiração: a transformação histórica das baleias em Arraial do Cabo

Temporada remete a um passado que ajudou a moldar a identidade cultural de Arraial do Cabo. Fotos: acervo de Wolney e Maycon Victorino.

Arraial do Cabo, conhecida por suas águas cristalinas e paisagens deslumbrantes, é também palco de muita história. No período da passagem das baleias, que geralmente acontece entre os meses de junho e outubro, a cidade se torna um ponto de observação privilegiada desses gigantes dos mares. Mas, o que muita gente não sabe, é que a temporada remete a um passado que ajudou a moldar a identidade cultural antes de Arraial ser um município. No livro “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia”, da Sophia Editora, o autor Leandro Miranda revisita a década de 1960, revelando como a antiga fábrica de baleia Taiyo Fishery Company contribuiu para a história de Arraial do Cabo.

Atualmente, a cidade atrai turistas e pesquisadores que buscam o local durante a temporada de visitação das baleias para ver os animais de perto ou estudar os mamíferos. Porém, nem sempre foi assim, houve um tempo em que as baleias eram pescadas para consumo. O escritor e pesquisador Leandro conta que as baleias foram caçadas principalmente com a implementação da Fábrica Taiyo na Praia dos Anjos, época em que Arraial ainda fazia parte de Cabo Frio.

“Os japoneses que fizeram a construção da fábrica fizeram uma pesquisa e descobriram que aqui as águas geladas que vem do Sul afloram, fazendo o plâncton, que é o alimento principal da baleia. E também porque estava perto do ponto de consumidores. Na época, ficava há três horas de carro e por mar, se não me engano, acho que eram seis ou sete horas de navio para levar para Santos para dela exportar. Então esses dois fatores foram fundamentais para eles montarem a fábrica aqui em Arraial do Cabo”, explicou Leandro.

Com autorização do governo para explorar a caça à baleia para consumo da carne, Leandro afirma que a empresa chegou a implantar uma rede industrial durante o período de caça, o que impactou os pescadores da região.

“Isso foi de encontro dos pescadores, porque inicialmente ela teria um acordo com os pescadores de empregar um certo número de pescadores, mas não cumpriu, e começou a botar essa rede, uma rede industrial, que atrapalhava o pescador ir para a Praia da Ilha, para o Maramutá, e também pegavam todo peixe que entrava ou saía da praia dos anjos”, contou o pesquisador.

A caça às baleias era um negócio tão comum que a prática fez com que o animal chegasse quase à extinção. Leandro contou que em três temporadas, a fábrica de baleia capturou mais de 1400 baleias de diferentes espécies.

Com a temporada de avistamento dos cetáceos em Arraial do Cabo, o escritor reforça a importância da conscientização de preservação não só de baleias, mas dos animais de modo geral.

“Tanto é que no livro eu falo um pouco sobre isso, que antigamente o pessoal se juntava pra ver quando a baleia chegava para ser retalhada. E, recentemente, quando encalhou o filhote de baleia Jubarte, o povo se juntou para salvá-la”, analisou ele.

Pesquisa internacional sobre as baleias em Arraial do Cabo

O Ecomar, a Funtec e o Projeto Mar de Baleias em parceria com a Universidade do Reino Unido estão realizando um estudo com as baleias que passam pelo mar de Arraial do Cabo durante o período de migração. A informação foi divulgada pela prefeitura do município nesta quarta-feira (26).

“Essa pesquisa é interessantíssima para conservação dos animais, para o poder público ser norteado na tomada de decisão e a conservação, sim, das baleias no Brasil e no mundo”, disse o Maycon Victorino, presidente da FUNTEC.

As equipes estão utilizando drones com tecnologia de sensor LiDAR, que emite pulsos de luz para atingir objetos e são refletidos de volta, fazendo uma espécie de escaneamento na baleia.

Como surgiu a Fábrica de Baleias?

Uma empresa japonesa dedicada à caça e a comercialização da carne de baleia para consumo, a Taiyo Fishery Company entrou em operação em 1960 em Arraial do Cabo, com total apoio político do período.

A empresa atuou com a caça de baleias até 1963 e fechou as portas principalmente porque os animais estavam ficando extintos na região, o que fazia com que os pescadores tivessem que ir cada vez mais longe atrás dos cetáceos, de acordo com Leandro.

Somado a isso, o pesquisador destaca que os problemas trabalhistas envolvendo a Taiyo e a falta de interesse dos sudestinos pelo consumo da carne de baleia também impactaram o andamento da empresa.

“No Sudeste, mesmo tendo vários estímulos para o consumo, propagandas em escolas, presídios, enfim, a Taiyo não conseguiu botar a carne de um jeito visual que o consumidor olhasse para carne e mostrasse interesse no consumo”, disse.

Leandro lembrou ainda que, incentivada pelo governo da época, uma fábrica de mortadela localizada em Três Rios chegou a comprar a carne da baleia para fazer mortadela e outros embutidos.

Fim da caça às baleias no Brasil

Embora a fábrica de baleia de Arraial do Cabo tenha parado sua atuação na década de 1960, a caça dos mamíferos só foi proibida no Brasil em 1987 por meio da lei federal 7.643, que proíbe a caça e molestamento nas águas jurisdicionais brasileiras, criada pelo deputado do período, Gaston Englert.

Leandro conta que chegou a entrevistar o deputado para a escrita da obra “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia” e ficou sabendo da história por trás da lei. Segundo o escritor, Gaston Englert contou que encontrou um amigo que trabalhava na fábrica de baleia e foi convidado para um dia de caça. Quando chegou no local, a cena espantou tanto Gaston que ele prometeu que se um dia tivesse oportunidade iria acabar com aquilo. Quando ele se tornou deputado, desenvolveu a lei vigente até a atualidade.

Ainda segundo Leandro, Gaston disse que já naquela época ele chegou a receber várias cartas do Brasil todo em apoio. Somente a bancada nordestina foi contra a proibição, pois no Nordeste a caça a baleias aconteceu até a implantação da lei, o que gerava emprego.

O livro “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia”

Segundo Leandro, seu pai trabalhou na Taiyo e chegou a participar da captura de uma baleia azul de cerca de 30 metros de comprimento e por volta de 100 toneladas. Isso foi um pontapé para que o autor se interessasse por pesquisar mais a história e escrever sobre.

Pai de Leandro Miranda sentado na boca da baleia azul captura para a fábrica de baleia. Foto: Arquivo Pessoal.

“Eu resolvi editar todo esse período junto com a história da baleia para registrar uma parte da nossa história que vem se perdendo com o tempo”, disse Leandro.

Livro “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia” de Leandro Miranda, publicado pela Sophia Editora.

A partir disso, o pesquisador conta que além do seu pai, entrevistou outros funcionários que trabalharam na fábrica e demais figuras relevantes para a obra, além de revisitar documentos que ajudaram a compor “Histórias do Arraial e a fábrica da baleia”, publicado pela Sophia Editora.

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