Brasil pede desculpas por mortes de bebês em Cabo Frio, na Corte Interamericana

Reconhecimento histórico foi feito diante de familiares das vítimas do caso “Mães de Cabo Frio”

Reconhecimento histórico foi feito diante de familiares das vítimas do caso “Mães de Cabo Frio” (Foto: Reprodução)

O Estado brasileiro pediu desculpas oficialmente as vítimas do caso “Mães de Cabo Frio vs. Brasil” na Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), ocorrida em Assunção, no Paraguai. O processo investiga violações de direitos humanos relacionadas à morte de 96 bebês recém-nascidos entre junho de 1996 e março de 1997 na UTI neonatal da Clínica Pediátrica da Região dos Lagos (Clipel).

Diante dos juízes e de familiares das vítimas, o Brasil reconheceu omissões estatais e pediu desculpas por fatos específicos ligados ao caso. Entre eles, a permissão para que uma clínica pediátrica conveniada ao SUS operasse sem autorizações e inspeções necessárias para seu funcionamento. “Esta omissão representa uma violação da obrigação estatal de garantir a proteção das crianças, sobretudo as que se encontram em instalações hospitalares, ainda que privadas”, afirmou Ílina Pontes, advogada da União e integrante da Procuradoria Nacional da União de Assuntos Internacionais (PNAI).

O Estado também pediu desculpas por manifestações consideradas discriminatórias feitas por representantes do Ministério da Saúde na época da apuração. Segundo a advogada, “as manifestações do Ministério da Saúde incorporaram estereótipos de gênero que não se coadunam com a tradição histórica de respeito e acolhimento que marcam o Sistema de Saúde de nosso país. Por esse motivo, o Estado brasileiro pede, de maneira solene, desculpas às Mães de Cabo Frio e aos seus familiares”.

Apesar de reconhecer violações, o Brasil defendeu que garantias judiciais foram asseguradas no país. A Advocacia-Geral da União (AGU) destacou que foram instauradas investigações e ações penais, posteriormente arquivadas por falta de nexo causal comprovado, e sustentou que a Corte IDH não tem jurisdição para analisar fatos ocorridos antes de 10 de dezembro de 1998, data em que o Brasil aceitou sua competência contenciosa.

Ainda assim, o governo se colocou à disposição em dialogar com as famílias para construir uma solução consensual. “Um acordo que possa atender, de forma adequada e proporcional, aos interesses dos familiares, aos limites procedimentais do caso, à realidade institucional do país e aos parâmetros interamericanos de proteção aos direitos humanos”, disse o representante do Ministério das Relações Exteriores.

Para o procurador nacional da União de Assuntos Internacionais, Boni Soares, o reconhecimento das violações amplia a credibilidade da defesa brasileira: “Um país como o Brasil só será efetivamente comprometido com o respeito e a garantia a direitos humanos na medida em que reconhecer os seus erros e reparar as violações cometidas por seus agentes”.

Todo o processo pode resultar na responsabilização internacional do Brasil e em medidas reparatórias às famílias, como indenizações, apoio psicológico, protocolos mais rígidos de vigilância sanitária e a construção de um memorial em Cabo Frio.

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