Esqueça as vultosas transações de centenas de milhões de euros que acontecem a cada janela de transferência do mercado europeu. Na inusitada e particular central de negócios das figurinhas da Copa do Mundo deste ano, o cromo de Lionel Messi pode valer tanto quanto um do zagueiro do estreante Panamá. O craque português Cristiano Ronaldo e o francês Griezmann podem ser tão procurados quanto um obscuro lateral da Costa Rica ou de um esforçado volante da Islândia. Não importa. A menos de uma semana para o maior evento do futebol mundial, se Cabo Frio não parece demonstrar a menor empolgação com o evento, muita gente corre para conseguir os 682 cromos e completar o álbum. A mania se renova de quatro em quatro anos, mas especificamente desta vez, às vésperas do torneio da Rússia, parece ter virado mais febre do que nunca.
Muito mais do que um hábito solitário, colecionar as fotos adesivas da nata do futebol mundial é um programa de família. Mais do que tudo, uma experiência social. Por meses, a banca Exótica, no Centro, não somente tem faturado com a venda de álbuns e pacotinhos, mas promovido ‘encontrões’ para aqueles que querem trocar suas figurinhas repetidas e completar mais rapidamente sua coleção. O Portal Fonte Certa foi ao local em um dia típico, que quer dizer lotado de gente de todas as idades. Entre elas, a família Fonseca. O pequeno Miguel Augusto tem apenas seis anos, mas já está no segundo álbum da Copa. Em 2014, com dois aninhos, o fã do atacante Gabriel Jesus já se divertia com as imagens de alguns dos atletas mais bem pagos do mundo. Surpresos com o desenvolvimento dele, os pais estimulam.
− Partiu dele a iniciativa de ter o álbum. Ele teve o primeiro quando tinha dois anos e meio. Sabia todas a seleções, falava os nomes, gravava as bandeiras e as figurinhas só pela imagem. Fizemos uma listagem com os números, mas ele não usa. Interessante ele saber falar 545 (risos). Isso é bem avançado pra quem tem 6 anos. A gente sabe que é uma indústria, mas procura olhar o lado construtivo disso, que é desenvolver o raciocínio dele – comenta a mãe Marisa.
Túlio, o pai, complementa e enaltece a experiência em família.
– A gente está sempre junto, vivendo coisas muito interessantes. Ele me ensina muito. Isso vai crescendo a intimidade entre a gente – descreve.

As trocas mobilizam famílias inteiras e pessoas de todas a idades. Foto: Redação Fonte Certa
O garotinho pode até saber as figurinhas que faltam apenas pela fisionomia, mas a maioria no ponto de troca usa mesmo da boa e velha lista de papel com os números dos cromos. À medida que o câmbio avança, eles vão sendo riscados, o que significa estar mais próximo de vencer o desafio de completar a coleção. Em tempos digitais, há quem prefira anotar nos seus tablets ou smartphones. A tecnologia também é usada para ajudar os colecionadores a organizar as trocas virtualmente, em grupos de Facebook e de WhatsApp.
De longe, a cena chama a atenção. Várias rodinhas cheias de pessoas ávidas por conseguir as figurinhas consideradas mais difíceis, em especial, as dos escudos das federações, que são metalizadas, e as dos mitos das histórias das Copas, como Pelé. Em uma dessas rodas, um rapaz vestido com a camisa da seleção da Croácia, confirma que existem cromos com maior grau de dificuldade para se conseguir, mas não se importa.
– Messi, CR7 (Cristiano Ronaldo), Neymar, Diego Costa e as brilhantes que sempre são as mais difíceis. Mas é bem interessante perder um pouco de tempo para completar porque senão seria muito fácil – anima-se.
O engenheiro e paisagista Roberto Stanzl, de 48 anos, é outro que aprova os círculos de troca. Ele já é veterano em coleções do tipo, desde os tempos das figurinhas embaladas com chicletes, como nas Copas de 82 e 86.
– Acho que é válido porque consegue completar o álbum no menor custo possível. Isso é que é um grande barato do negócio: fazer a troca e interagir com as pessoas. O álbum é do filho, mas quem coleciona é o pai (risos) – diverte-se, ao lado do filho Cauê, de 8.
A proximidade do torneio e a demanda levaram a surgir uma espécie de mercado paralelo de compra e venda de figurinhas. Praticamente todos reconhecem que existe, mas ninguém admite fazer esse tipo de negócio, onde um cromo do belga Eden Hazard ou o escudo da Alemanha pode valer até R$ 10. Para se ter uma ideia, um pacote com cinco cromos custa R$ 2.
Reinaldo Pereira Lima, de 67 anos, coleciona quatro álbuns ao mesmo tempo, para filhas e neta, mas ele nega que pague mais caro para encurtar o caminho.
– Existe um câmbio negro. Cobram de R$ 5 a R$ 10 por Neymar, escudos. Metem a mão, mas eu não dou não – jura.

Ao lado do pai, o pequeno Miguel Augusto, de 6 anos, já está no segundo álbum da Copa. Foto: Redação Fonte Certa
As rodas de troca ajudam a impulsionar o movimento na banca Exótica, mas a funcionária Márcia Ferreira garante que não é só o lucro que conta.
– Esse momento de troca de figurinha não é só de venda, mas de restaurar um momento social das pessoas, para que elas saiam de frente da TV e dos tablets e para as crianças, principalmente, que estão aprendendo a negociar. É bem interessante esse momento – avalia.
O tempo é escasso, mas ainda dá tempo de colecionar até o fim da competição, que vai até 15 de julho. O álbum comum custa R$ 7,90; o de capa dura sem pacote de figurinhas custa R$ 25,90 e o de capa dura, com 12 pacotes de figurinhas sai a R$ 49,90. Como dito acima, o pacote com cinco figurinhas é vendido a R$ 2. Os cromos faltantes podem ser conseguidos pelo site oficial da fabricante, a Panini.


