Seis dias após a morte de Jorge Carlos Machado Junior, de 44 anos, a viúva dele, Isabella Estrella Machado, 38 anos, encontra-se perdida, sem saber o que fazer. Casados há sete anos, eram muito parceiros, trabalhavam juntos na serralheria e, como relata Isabella, “éramos como um só, ele fazia tudo por mim, foi a melhor coisa que Deus me deu. Quebraram minhas pernas”. Uma dor sem fim se abateu sobre a família desde o falecimento dele e, até agora, sem apoio algum por parte das autoridades municipais.
A morte de Jorge Carlos, na última quarta-feira (14), após uma série de negativas de atendimento e descumprimento de decisões judiciais, segue repercutindo em São Pedro da Aldeia e em toda a Região dos Lagos. Familiares e amigos do serralheiro denunciam omissão por parte do Pronto-Socorro da cidade e da Secretaria de Saúde municipal, e cobram providências das autoridades.
“Eu acredito que se desde quando a gente começou a ir para o hospital, ele com falta de ar, ele com dor no ombro, sem explicação, inchaço nesse ombro e todas as vezes mandavam a gente para casa alegando o estresse dele, a ansiedade. Se desde o início fizessem um exame de imagem, ele estaria aqui sim, entendeu? Quando ele internou a partir do dia 2, mesmo estando grande, independente da opinião dos médicos, se seria arriscado ou não a cirurgia, a gente tinha o direito de tentar, porque com a cirurgia ou não, Jorge estava mais em risco pelo tamanho do tumor, mas eles nos negaram, eles nos negaram essa tentativa, não nos deram a chance nem sequer de tentar. Então o estado foi negligente sim, foram 12 dias de espera, o Jorge entrou andando, o Jorge entrou falando, só com um pouquinho de falta de ar, e faleceu”, relata, chorando, a viúva.
Isabella conta ainda que não recebeu apoio da Secretaria Municipal de Saúde e que ninguém a procurou até agora.
“Agora meu filho e eu estamos tendo crises de choro, ansiedade… Desenvolvemos gatilhos por situações que aconteceram durante esses doze dias de desespero e descaso. E ninguém nos procura”, desabafa.
O que muita gente não sabe, é que além da perda da dor, Isabella ainda enfrenta dificuldades financeiras porque as contas do marido foram bloqueadas pelo falecimento.
“Tínhamos uma serralheria, eu o ajudava, mas sem vínculo empregatício. Ele era o único provedor. Estou aqui sem poder arcar com os serviços, aluguel, funcionários. Procurei a justiça e agendaram somente para o dia 28… mas já soube que depois disso demora. Estou me arrastando”.
Jorge deixa dois enteados que considerava como filhos legítimos, uma jovem de 21 anos e um menino de 12, e um neto de sete meses. Conhecido pelo trabalho como serralheiro, ele era figura querida entre os moradores da cidade. Desde a manhã de segunda-feira (19), quando o portal Fontecerta.com publicou os primeiros detalhes do caso, a comoção se intensificou nas redes sociais. Centenas de internautas compartilharam a história e enviaram mensagens de apoio à Isabela Estrella. “Um grande homem, um grande amigo, um excelente profissional, que Deus dê forças à sua família nesse momento tão difícil. Vamos sentir a sua falta irmão”, comentou um amigo da família em uma publicação. “Muito triste e revoltante esse descaso”, comentou outra internauta.
Questionada sobre o que pretende fazer, Isabella Estrella informou que ainda está pensando, mas vai se reunir com um advogado que se prontificou a ajudá-la. Quanto à secretaria de Saúde de São Pedro, ela deixou um recado:
Por que eles não fizeram a angiotomografia de contraste como foi pedida com urgência no fim do mês passado? Por que todo quadro hoje é dado como estresse e ansiedade e não se investiga melhor? Pra cortar gastos? Pra politicagem ninguém economiza!”, finalizou.
Entenda o caso
Jorge Carlos Machado Junior era serralheiro. Tinha 44 anos e morreu na última quarta-feria (14) após uma longa busca por atendimento adequado na rede pública de saúde de São Pedro da Aldeia. Segundo a família, ele procurou diversas vezes o Pronto-Socorro da cidade com falta de ar constante, no entanto, seu quadro clínico foi tratado pelos médicos como ansiedade sem exames aprofundados.
Um raio-x feito no início do mês revelou uma massa no tórax pressionando o coração, exigindo cirurgia urgente. A Justiça chegou a determinar a transferência imediata de Jorge para um hospital com UTI em Araruama, mas a ordem não foi cumprida.
Em nota, a prefeitura de São Pedro da Aldeia informou que está apurando o caso junto à Secretaria responsável e entrará em contato assim que tiver um retorno.


