Justiça Federal decide ampliar discussão sobre navios em Búzios

Órgão deu 30 dias para manifestações públicas no processo que discute futuro da ancoragem no balneário

Órgão deu 30 dias para manifestações públicas no processo que discute futuro da ancoragem no balneário

A Justiça Federal concedeu um prazo de 30 dias para que as partes envolvidas no processo sobre a ancoragem de navios de cruzeiro em Búzios apresentem manifestações técnicas e jurídicas. A juíza federal Mônica Lúcia do Nascimento Alcântara Botelho informou que o processo seguirá com um prazo inicial de 15 dias para o envio de contribuições por e-mail ao juízo. A medida foi tomada após audiência pública, realizada na semana passada, que reuniu representantes do poder público, especialistas, comerciantes e ambientalistas para discutir os impactos econômicos e ambientais da atividade turística no município.

Na reunião em praça pública, que antecedeu a decisão da Justiça foi marcada por um intenso debate sobre o modelo atual de fundeio utilizado pelos navios que operam em Búzios. A principal controvérsia gira em torno da exigência de substituição do fundeio por âncora pela instalação de boias de amarração — medida defendida por setores ligados ao meio ambiente, mas considerada inviável por representantes do setor náutico e do comércio local.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a operação atual carece de licenciamento ambiental adequado e pode representar riscos à fauna marinha da região, em especial ao Parque dos Corais, uma área de proteção ambiental próxima aos pontos de fundeio. Pesquisadores do Instituto de Biodiversidade da UFRJ e do Instituto Coral Vivo reforçaram, durante a audiência, a necessidade de estudos atualizados e de maior rigor técnico na avaliação dos impactos provocados pelos transatlânticos.

Por outro lado, representantes da Marinha do Brasil argumentaram que o fundeio com ancoragem continua sendo o método mais seguro desde que devidamente monitorado. Segundo o órgão, a simples substituição por boias não eliminaria os riscos náuticos e ainda exigiria uma complexa estrutura de engenharia.

O especialista em logística marítima Luciano Oliveira chamou a atenção para os altos custos das soluções propostas. Segundo ele, a instalação de boias do tipo Dolphin — modelo mais citado nos estudos — demandaria investimento inicial na casa de dezenas de milhões de reais, além de provocar alterações significativas no fundo, marinho e na paisagem do balneário. “Os navios cresceram, e as soluções precisam acompanhar essa realidade. Mas não se pode aplicar modelos simplistas a um contexto tão específico como o de Búzios”, ponderou.

Turismo de cruzeiros sustenta a economia sazonal
Segundo a Prefeitura de Búzios, a temporada 2024/2025 encerrou com aproximadamente 100 escalas de cruzeiros entre outubro e abril, o que resultou em cerca de 500 mil visitantes circulando pela cidade. A movimentação gerou um impacto econômico estimado em R$ 13 milhões, com gastos médios de R$ 750 por visitante, abrangendo alimentação, hospedagem, transporte, passeios e comércio.

Para o setor empresarial, a eventual suspensão ou restrição das escalas comprometeria a sustentabilidade econômica de dezenas de negócios locais que dependem diretamente da alta temporada. “A cidade não tem porto. Ela tem turismo. E o turismo depende desses navios”, resumiu Vana Lopes, presidente da Associação do Centro Turístico de Búzios (ACTB), uma das entidades à frente da mobilização que reuniu mais de 40 comerciantes em protesto na semana passada.

Sociedade civil defende equilíbrio
Do outro lado do debate, entidades como o coletivo Cidadania Buziana e o Instituto dos Arquitetos do Brasil – Núcleo Búzios defendem que o crescimento do turismo deve estar vinculado à preservação dos recursos naturais. Para esses grupos, o município precisa construir um plano de ordenamento costeiro que estabeleça limites claros para as atividades em áreas ambientalmente sensíveis, conciliando a vocação turística da cidade com a proteção dos ecossistemas marinhos.

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