“Vale Tudo” para preservar: Praia da Pitória se destaca em projeto de Turismo de Base Comunitária

Biojoias, gastronomia e imersão na cultura pesqueira atualizam definição de Tratar Bem Meio Ambiente

Biojoias, gastronomia e imersão na cultura pesqueira atualizam definição de Tratar Bem Meio Ambiente. Foto: Wislei Rabello

A semana havia sido de chuva e frio em uma primavera atípica. Apesar dos 12 graus daquela manhã da última sexta-feira de outubro, a luz do sol logo voltaria a brilhar no espelho d’água, avisou um dos guardiões da Lagoa de Araruama, com toda sua sabedoria sobre o bioma que o cerca. História de pescador? Que nada. O céu azul-turquesa começou a dar o tom do dia. Um cenário perfeito para ver de perto um lugar que Chico Pescador descreve como paraíso na terra: a Praia da Pitória, em São Pedro da Aldeia, e as histórias que são a riqueza do Turismo de Base Comunitária, projeto desenvolvido em parceria com diversas entidades, entre elas a Prolagos.

Conheci o Chico quando ainda engatinhava no jornalismo, lá pelos meados dos anos 1990, e ele começava a se destacar como um líder da comunidade pesqueira que fazia parte. Neto e filho de pescador, Chico hoje é presidente da Associação de Pescadores Artesanais e Sentinelas da Laguna. Sempre com um olhar amplo sobre a laguna e seus pescadores, Chico nos recebe entusiasmado, já que o pai dele, o pescador Evaldo da Rocha Guimarães, estava chegando da laguna e que era uma cena imperdível. Eu e o fotógrafo Wislei Rabello nos acomodamos no píer da Pitória e em poucos minutos o pescador de 79 anos chega, exibindo uma força e luz que se destacam no tapete que a laguna forma. Sorridente, ele estava satisfeito com os camarões que havia garantido para o almoço.

– É isso que me mantém vivo. Olhar essa natureza que Deus fez e dar valor a ela é tudo. O resto é o resto… – filosofa seu Evaldo, contando sobre a receita do dia: sopa de camarão com macarrão, prato típico preparado pela esposa, dona Índia.

Na beira da praia, outros pescadores compõem o cenário paradisíaco. Parece cena de novela, não há um papel de bala no chão, é tudo limpo e muito bem cuidado por eles. É nas margens da lagoa que a vida dessa comunidade ganha cor e sentido. Eis o objetivo do Turismo de Base Comunitária: mostrar para o mundo que vale tudo para preservar a natureza e a cultura local.

Passeio de Lancha pela laguna: imersão nas águas claras da laguna

A lancha do passeio é uma das cinco que cada organização de comunidades pesqueiras do entorno da laguna ganhou por meio de um edital da FunBio, e, através de projetos como a Lei Rouanet e parcerias, como com a AEGEA – holding que controla a Prolagos, a concessionária de serviços de água e esgoto que atua na Região dos Lagos – os pescadores legalizaram 50 embarcações para o Turismo de Base Comunitária. E é hora de partir, saímos do píer em direção à Ponta dos Cardeiros. O clima está perfeito, a laguna cristalina reflete o céu e, mais uma vez, nos vemos no paraíso. Na parada, Chico explica que a Ponta dos Cardeiros ganhou esse nome devido a quantidade de cactos no lugar. Ao desembarcarmos, ele pede que tiremos os calçados para pisar nas conchas. “É acupuntura natural de graça”, sugere. E sim, andar por ali, pisar nas conchas que parecem aveludadas, é uma experiência sensorial. Se havia algum estresse, ele ficou no píer. A Pedra da Faustina, um lugar cheio de histórias “mal-assombradas”, é outro destaque do passeio. Chico nos conta sobre dona Faustina, que ali morava, e nos mostra as pedras milenares que estão ali desde a Pangeia.

(Confira o vídeo abaixo)

Conheça as histórias escondidas na Pedra da Faustina, em São Pedro da Aldeia, com Chico Pescador

– Temos opções de passeio que duram até o pôr do sol. Aqui, o turista encontra uma experiência diferente, assamos peixe na brasa, contamos um pouco da nossa história, mostramos nossas belezas naturais, que são muitas. Trabalhamos nesse projeto há três anos e sempre falamos para os turistas a importância da preservação da natureza – conta Chico.

O projeto de responsabilidade socioambiental é um dos 20 que a Prolagos apoia. A concessionária informa que apoia projetos que incentivam a sustentabilidade e a geração de renda nas comunidades. “Um deles é o “Pescando Tradições e Compartilhando Saberes”, projeto com foco no Turismo de Base Comunitária, confecção de biojoias e fortalecimento da cultura pesqueira. Este apoio é realizado através de incentivo estabelecido e aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet. O projeto, que beneficia associações de pescadores em quatro cidades da Região dos Lagos, tem como principal objetivo estruturar e desenvolver o Turismo de Base Comunitária da pesca artesanal”.

E ao fim do passeio de lancha, depois de ouvir tantas histórias e conhecer lugares inesquecíveis, a certeza de que o roteiro do TBC não permite que você seja o mesmo que entrou ao sair: a sensação de relaxamento, encantamento e leveza transformam seu dia. As reflexões são inevitáveis ao desembarcar da lancha… É sobre generosidade da laguna com os pescadores e deles com tudo que os cerca: do peixe que alimenta à biojoia que embeleza, passando por uma cultura feita por caiçaras que sabem como ninguém o poder e o valor da simplicidade. Atitudes que transformam o meio ambiente e vidas, e a Juliana Cordeiro é um belo exemplo disso.

Biojoias, a arte de transformar escama em ouro

“Vamos fazer diferente”, diz Heleninha aos prantos para a tia Celina em uma cena emocionante da novela Vale Tudo, da Rede Globo. O diálogo comovente que trata do alcoolismo na novela chama a atenção pela importância do tema, pela atuação brilhante de Paola Oliveira e Malu Galli e, por fim, pela beleza dos brincos usados pela personagem Celina. Feitos a partir de casca de marisco, reluzem na tela. São peças chamadas de biojoias – um setor que vem se destacando em diversos lugares do país e aqui na região através do talento de pessoas como a pescadora e artesã Juliana Cordeiro. Nascida em Campos, filha de pescador, Juliana hoje faz parte da comunidade da Praia da Pitória. Chico Pescador conseguiu um curso para ela e mal sabiam que a iniciativa ia transformar a vida de Juliana e sua família.

“O projeto de Biojoias, por exemplo, é uma iniciativa de sustentabilidade e empreendedorismo feminino que a Prolagos apoia desde 2021. Nele, artesãs, muitas vezes esposas de pescadores, transformam resíduos da pesca, como escamas de peixe, em peças de adorno, unindo beleza, cultura e sustentabilidade. Essa iniciativa promove o empoderamento das participantes e a complementação de renda”, informa a Prolagos, que apoia o projeto. Mas o apoio não transforma só a vida das pescadoras e pescadores da Pitória, outras associações, de outros municípios no entorno da laguna, despontam na promoção do TBC e produção de biojoias.

Da Ponta dos Cardeiros para o ateliê de Juliana na Pitória, conhecer as joias é a parte final do passeio. É a cereja do bolo, para encerrar a imersão pela comunidade pesqueira e suas raízes. É única a sensação de ver que uma simples escama de peixe vira ouro na mão de artistas como Juliana. Colares, brincos e até roupas são feitas das escamas de tainha, perumbeba e corvina.

– Um colar demora uns 20 dias para ficar pronto porque preciso tratar a escama, tirar o cheiro, pigmentar. Fiz um vestido com mais de três mil peças e agora fui contratada para fazer um vestido de noiva de escamas. Hoje, esse dinheiro ajuda na renda da família e estou construindo minha casinha com ele. Eu estava sofrendo de depressão e essa arte me salvou – conta, emocionada, a artesã.

(Confira o vídeo abaixo)

A pescadora e artesã Juliana Cordeiro fala sobre a importância do trabalho com biojoias em São Pedro

E a joia é tão sedutora que foi impossível não sair de lá com uma peça. Aliás, duas: um colar laranja de escamas de tainha lindíssimo e um brinco turquesa. São peças únicas, que carregam em si a força da mulher empreendedora, de uma verdadeira alquimista: nas mãos de Juliana, escama vira ouro. Aliás, ao passar uma manhã memorável na comunidade pesqueira da Praia da Pitória, saio de lá com algumas certezas. É na simplicidade que eles encontram a maior das riquezas, que é a de viver e lutar com orgulho pelo paraíso que os habita. E eles venceram, pois, quando unidos, são muito mais fortes. Absolut cinema, novela, literatura, coisas que a Laguna de Araruama nos proporciona diariamente, basta saber ver e valorizar.

Que dia, que passeio, que pessoas incríveis, que laguna!

(Confira o vídeo abaixo)

Vídeo das praias: Paraíso às margens da Laguna de Araruama

Fotos e vídeos: Wislei Rabello

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