Jogar lixo em lugar indevido pode parecer um ato simples, quase que inofensivo, mas que carrega consequências profundas. Um saco plástico que escapa da mão, uma garrafa esquecida na areia, um canudo que o mar devolve dias depois, são pequenos sinais de um hábito que insiste em permanecer. Ao descartar o que não serve mais, acreditamos que ele deixará de existir. Mas cada resíduo lançado ao acaso se transforma em sintoma de algo mais intenso, um modo de vida que separa o ser humano da própria natureza.
Entre o impulso inconsciente e a consequência visível, há um sistema inteiro tentando conter o que o descuido humano é capaz de produzir. Na Região dos Lagos, essa fronteira entre o comportamento e o impacto ambiental passa pelo saneamento, onde tecnologia e consciência disputam espaço com velhos hábitos.
Por décadas, o acúmulo de resíduos e o despejo irregular de esgoto contribuíram para um grave processo de degradação da Laguna de Araruama e de outros mananciais que compõem o ecossistema das cidades litorâneas. Desde 2004, a concessionária Prolagos iniciou a operação do sistema de esgotamento sanitário com coleta em tempo seco, em parceria com o poder público e órgãos ambientais. A iniciativa pioneira passou a redesenhar a história da região.
O sistema permite que o esgoto seja interceptado diretamente nas galerias de drenagem pluvial, evitando que chegue à laguna. O modelo foi resultado de uma união inédita entre a sociedade civil, Ministério Público, municípios atendidos e agência reguladora. Antes, todo tipo de resíduo misturava-se ao esgoto, poluindo as águas. Hoje, com o sistema operando em conjunto com as redes separativas, a cobertura de coleta e tratamento saltou de zero para mais de 90% da área de concessão desde a privatização dos serviços, em 1998.
A transformação é mensurável. Segundo a Prolagos, atualmente, mais de duas toneladas de lixo são retiradas por mês apenas do sistema de coleta em tempo seco. Porém, o que se encontra lá é o retrato fiel do descuido das pessoas: plásticos, madeiras, metais, isopores, borrachas e até itens inusitados, como pinos de laboratório — usados no armazenamento de cocaína — e preservativos. O processo de gradeamento nas entradas das ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto) impede que esses materiais sigam para as etapas seguintes do tratamento, preservando a qualidade do efluente final.


Para o psicólogo Raphael Araújo, que estuda o comportamento humano, a desconexão entre o indivíduo e o meio ambiente é um dos principais motivadores do hábito de jogar lixo em locais inadequados. Segundo o especialista, a repetição dessa prática transforma em algo socialmente aceito. “O ser humano aprende muito por meio da imitação. Essa desconexão faz parte de um viés cognitivo praticado em conformidade com o grupo, que vai dar atenção a consequências mais imediatistas. A consequência ambiental ainda é algo distante. “Leva tempo para os bueiros entupirem. Leva tempo para o efeito estufa. Vai levar um tempo para os peixes sumirem”. Essa distância transforma o problema em algo abstrato que começa a ser relativizado”, explica o psicólogo.
Ainda segundo Raphael, há outro fator que agrava o problema: a percepção negativa sobre os resíduos. “No Brasil, a gente tem a noção de que o privado deve ser bem cuidado. Então, limpamos e cuidamos do que é nosso, mas o que é público, o que está fora de casa, é visto como responsabilidade da Prefeitura, das Concessionárias, do Estado. A gente associa o lixo a algo ruim — e o que é ruim, é negado. Não pode ser nosso. Remodelar essa cultura é essencial para criar uma visão coletiva sobre o lixo, mas isso demanda tempo”, destaca.
Os malefícios não esperam o problema ser resolvido
Enquanto a mudança cultural não vem, os efeitos do descarte inadequado se acumulam na natureza. Segundo o biólogo Geraldo Lima, o fato do plástico estar entre os principais materiais encontrados no sistema de esgotamento sanitário da região é preocupante. “Todo lixo que chega aos nossos corpos hídricos impacta fortemente a biodiversidade. E o plástico é um poluente muito significativo, porque temos a questão do microplástico, que afeta diretamente a cadeia alimentar dos animais marinhos e lagunares. Além disso, quando esse material recebe a incidência de raios ultravioletas, sua decomposição libera metano e etano na atmosfera, acelerando o efeito estufa e o aquecimento dos oceanos”, explica.
O poder dos pequenos gestos
Em meio à quantidade de resíduos descartados, é nas atitudes individuais que mora a esperança de mudança. Moradora de Cabo Frio, Luciana Branco encontrou no cotidiano uma forma de cuidar do meio ambiente. “Procuro fazer minha parte. Não misturo o lixo orgânico com o seco e, sempre que posso, enterro os resíduos biodegradáveis”, conta a professora e produtora cultural, ressaltando que o simples ato de jogar lixo fora é um reflexo de uma desconexão. “Não existe ‘lá fora’. Tudo o que descartamos continua no mundo e volta para nós. As famílias não se preparam, e as escolas ainda falam pouco sobre isso, infelizmente. É uma questão ética e de cuidado”, conclui Luciana.

Evolução e investimentos
Para minimizar os impactos ambientais, a resposta tem estado na evolução dos processos e no investimento em novas tecnologias. Hoje, a Prolagos já opera o mais alto padrão de tratamento sanitário existente. A ETE de Búzios funciona em nível terciário, ou seja, o mais rigoroso processo de purificação, e a de São Pedro da Aldeia, recentemente inaugurada com a mesma tecnologia, ampliando o tratamento. Em Cabo Frio, as obras nas ETEs da Praia do Siqueira e do Jardim Esperança seguem em ritmo acelerado, enquanto Arraial do Cabo se prepara para receber uma nova estação, mais moderna e localizada fora da área urbana. Ao todo, são cerca de 450 milhões de reais em investimentos voltados à ampliação e modernização das estruturas.

Os impactos positivos são sentidos em todos os ecossistemas. Desde a implantação do sistema e a sanção do Marco Legal do Saneamento, há mais de 20 anos, as águas da Laguna de Araruama vêm recuperando cor, transparência e vida. Pescadores voltaram a trabalhar, o turismo ganhou fôlego e o meio ambiente começou a respirar de novo.
Outro resultado está nas praias. Um relatório do Blue Keepers, programa do Pacto Global da ONU, aponta que o número de lixo coletados no litoral das cidades atendidas pela Prolagos caiu pela metade em dois anos: de 10.230 para 4.516. Canudos, copos e tampas de garrafa representam cerca de 75% desse total, grande parte fruto do próprio lazer nas praias.
Para Geraldo, a queda do número de resíduos coletados é um avanço que deve ser celebrado. No entanto, ações de conscientização seguem indispensáveis, pois “mesmo em pequena quantidade, o lixo pode causar grandes danos ao ecossistema e à fauna”.
Educar para transformar
A Prolagos reforça o papel da educação ambiental como parte essencial do processo de transformação garantida pelo saneamento. Atualmente, são 20 projetos socioambientais em andamento. Entre eles, o “De Olho no Óleo”, que estimula o descarte correto do óleo de cozinha usado, e o “Saúde Nota 10”, que leva palestras e apresentações teatrais sobre saneamento para alunos da rede pública. Um convite à corresponsabilidade. “Na infância, temos marcos de desenvolvimento que não retornam mais. É um momento em que estamos mais férteis ao aprendizado. Então, campanhas, aulas e visitas são muito importantes para criar aquela proximidade com o cuidado. Visualizar a consequência do ato e os benefícios da boa ação é algo essencial para todos, mas sobretudo para as crianças”, afirma o psicólogo Raphael Araújo, ao lembrar da importância da preservação do meio ambiente e, quando voltados às crianças, ajudam a formar uma consciência duradoura.
Ações educativas, somadas à aplicação das leis ambientais, são passos importantes para quebrar o ciclo do descarte incorreto do lixo. É o que pontua o biólogo Geraldo Lima. “É importante que não deixemos essa marca negativa por onde passamos. Nossa marca tem que ser fotos, boas memórias e não o nosso lixo. O lixo mais tarde acaba voltando contra a gente e se torna um grande problema para todos”, pontua.
Entre a pressa cotidiana e a falta de consciência, ainda há espaço para transformação. Quando o lixo encontra o destino certo, o meio ambiente agradece e a cidade respira. No fim das contas, cuidar do que é público é cuidar daquilo que, de alguma forma, também é nosso.




