Desenvolvimento e valorização cultural: o Turismo de Base Comunitária na Lagoa de Araruama

Símbolo de resistência da cultura local, atividade foi impulsionada após melhora da qualidade da água da lagoa. Foto: Acervo da APAAPP

Quando se pensa na Região dos Lagos, o imaginário popular é levado a associar três elementos fundamentais: o turismo, a pesca e a Lagoa de Araruama. Nascidas à beira da maior laguna hipersalina do mundo, as duas primeiras atividades são carregadas da história e da cultura caiçara. E nos últimos anos, graças às ações de recuperação da lagoa, as mesmas atividades foram combinadas através das ações de Turismo de Base Comunitária (TBC).

Trabalho essencialmente ligado às comunidades tradicionais, o TBC é compreendido como uma modalidade mais sustentável do turismo, que busca valorizar o cotidiano local e permite que os turistas tenham uma experiência genuína de vivência da cultura. Para Francisco da Rocha, conhecido como Chico Pescador, na Região dos Lagos, a atividade é uma forma de resistência da comunidade pesqueira, e contribui para promover a garantia ao território e mostrar as belezas do entorno da lagoa. 

“O TBC transcende a questão da pesca artesanal, porque, ao mesmo tempo que você está um pouco fora da atividade, você continua dentro do seu barco, falando do que você faz. E, às vezes, praticando a pesca com o turista. É a união do que a gente é e o que a gente vive. Então, isso é mais do que prazeroso. Aqui na Pitória, a gente tem um roteiro que sai da praia, passa pela Ponta dos Cardeiros, visita a Pedra da Faustina, conta a história, e – dependendo do vento, se for o sudoeste – vai para a Ponta da Massambaba. Pelo caminho a gente vê a galera que faz o cerco pescando e encostamos. Geralmente acontece uma roda de conversa com os participantes e eles pegam o peixe ali mesmo, onde fazemos o nosso peixe local, nossa gastronomia ancestral. Dura praticamente o dia todo.”, detalha Chico, que afirma ter levado mais de 300 pessoas pela lagoa no último ano, entre moradores e turistas nacionais e internacionais.

Presidente da Associação de Pescadores Artesanais e Amigos da Praia da Pitória (APAAPP), em São Pedro da Aldeia, Chico foi pioneiro na modalidade do TBC no local. Segundo ele, na Região dos Lagos a atividade foi iniciada a pouco mais de 4 anos e coincidiu com a melhora do índice de balneabilidade da Lagoa de Araruama, que havia colapsado nos anos 90 e passou a ser recuperada nos anos 2000. Após mais de 20 anos do início da recuperação, atualmente, a lagoa já conquistou 85% de boas condições. O dado é considerado essencial para o início do TBC na região.

Para o biólogo e professor Eduardo Pimenta, o turismo de base comunitária depende da qualidade dos recursos naturais. “Aqui na Região dos Lagos é a lagoa limpa, o ambiente saudável, e outros fatores. A gente vê como isso é importante pela forma como [a atividade] tem crescido ultimamente. Nos últimos anos, a Lagoa de Araruama chegou a um nível de balneabilidade compatível com a saúde humana. Existem algumas partes da lagoa que ainda precisam melhorar, mas hoje, 85% do corpo hídrico está em boas e ótimas condições, o que trouxe de volta o turismo, os esportes náuticos e esse tipo de prestação de serviço, que está sempre relacionado a populações tradicionais.”, explica o especialista.

 

Turismo de Base Comunitária na Região dos Lagos

Chico Pescador recorda o árduo trabalho que os pescadores enfrentaram no início dos trabalhos com o TBC em São Pedro da Aldeia. “A gente viu que é uma forma de gerar renda e perpetuar a cultura de nossa atividade da lagoa. Era nossa luta. A partir daí decidimos investir nas ações”.

Foto: Acervo APAAPP

Quando começou a realizar os passeios de forma remunerada e viu o potencial econômico da atividade, Chico não poupou esforços para levar o conhecimento a outras comunidades pesqueiras da Região. O pescador foi atrás de investimentos e editais do governo para realizar capacitações sobre o assunto.

“Nós ganhamos um edital do Ponto de Cultura há uns 4 anos, envolvendo a cultura da pesca artesanal e também ajudando a preparar essas embarcações para fazer o transporte de passageiros. Foi junto a isso que começamos a trabalhar o Turismo de Base Comunitária. E há um ano atrás, a gente ganhou o projeto Pescando Tradições e Compartilhando Saberes, de Funbio, para capacitar pescadores da nossa e de outras comunidades e também legalizar as embarcações para fazer o transporte passageiro.”, contou.

Foto: Reprodução/ Acervo da APAAPP

O Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), em seu mais recente projeto, promoveu o  intercâmbio entre os pescadores, para “comutar experiências e ampliar as perspectivas dos grupos envolvidos”. Na ação, foram capacitados 40 membros das associações pesqueiras de Monte Alto, Praia da Baleia, Praia do Siqueira, Parque das Garças e, claro, Praia da Pitória.

Joel da Silva, que em 2012 trocou a construção civil pela pesca profissional em Monte Alto e hoje é o presidente da Associação de Pescadores Artesanais de Monte Alto (APAMA), em Arraial do Cabo, foi um dos cursistas do projeto de capacitação do TBC comandado por Chico.

“Aqui em Monte Alto, a gente já praticava o turismo de base comunitária sem saber o que era.” comentou Joel entre risos, antes de continuar: “Eu sou carpinteiro naval e, antes da pandemia, ampliei meu barco para poder transportar passageiros. Sem conhecer o TBC, eu peguei e falei ‘Vou fazer passeio, vamos embora’, mas não sabia muito sobre esse processo. Quando o Chico entrou na história as coisas mudaram. Nos cursos a gente aprendeu o que é, como funciona, o que é preciso, como conversar com o passageiro, e ganhou equipamentos de segurança que são muito importantes para esse trabalho.” explicou.

Já capacitado, Joel costuma levar os turistas através de um percurso composto pela Ilha do Amor, Ilha dos Prazeres, Ponta do Paraíso e Lagoa Azul – todas próximas à Lagoa de Monte Alto. Apaixonado pela pesca, ele conta que ensina aos turistas a vida do pescador e não consegue deixar a atividade de lado mesmo nos dias de passeios mais longos.

Foto: Reprodução/ Acervo da APAAPP

“Em um dia de passeio eu acordo às 4h para pescar e levo minha filha comigo para depois cuidar da venda do peixe. Começo a me preparar para os passeios às 6h e quando todo mundo chega a gente parte. O turista vira o pescador. A gente sai, pesca e o peixe é dele. E a experiência é a mais tradicional possível. A gente não leva talher, nada disso. A gente só usa uma faca para limpar o peixe, vai lá em um galho de árvore, corta e usa para limpar o peixe, bota ele para assar com a madeira e come o peixe ali mesmo. E na preparação, sabe qual é o tempero? Água da Lagoa. É o sal, o sal da água da lagoa. A gente vai assando ele e jogando água da própria lagoa em cima dele.” detalha Joel. 

Para ele, a utilização da água da lagoa na culinária mostra como o espaço foi transformado, e, hoje, a qualidade da água é um dos pontos mais importantes do passeio. “Se a água estiver suja, não tem como.”, afirma

Já Chico afirma que a experiência promovida pelo TBC, associada com a questão da sustentabilidade é suficiente para tornar a atividade única. Contudo, há ainda outras questões que fazem com que ela seja mais que especial.

Foto: Reprodução/ Acervo da APAAPP

“A gente consegue mostrar e passar para o turista a importância da nossa cultura, das questões ambientais e de recuperação ambiental da lagoa, do engajamento das organizações de pesca, dos projetos das organizações de pesca, das questões ligadas à identidade geográfica do pescado. Quem pratica, quem participa sai daqui com uma aula, sai apaixonado pela vivência, pela lagoa e pela região.”

 

Regulação da Atividade

Após a fase de capacitação, a luta dos pescadores para regularizar outros companheiros segue viva. Hoje, na Praia da Pitória, cinco barcos estão regularizados e ficam à disposição do TBC. Já em Monte Alto, duas embarcações estão disponíveis para a realização das atividades.

Segundo Joel, para praticar o TBC na Lagoa de Araruama, o pescador deve estar atento às normas estabelecidas para as embarcações. “Tem que modificar a embarcação de pesca para o passeio. O barco tem que ser mais largo com uma borda diferenciada, porque o nosso barco de pesca, ele tem uma borda de uma tábua só. Já o de passeio tem que ser duas tábuas com uma margem de 15 centímetros, para que o passageiro possa sentar na borda da embarcação sem que se machuque.”, explica.

Foto: Reprodução/ Acervo da APAAPP

Além disso, a regulação da atividade está associada a qualificações que garantem ao pescador duas carteiras profissionais da Marinha: a de Pescador Profissional (POP) e a de Marinheiro Auxiliar de Convés (MAC), que garante a habilitação em transporte de passageiros.

“O grande desafio é que nenhum dos cinco municípios em torno da Lagoa têm uma lei específica para turismo náutico, principalmente ligado ao turismo de base comunitária. Isso é um atraso para a gente, para os trâmites. Então, aqui a gente trabalha nisso, para garantir que o TBC na Lagoa de Araruama seja praticado pelos pescadores. Durante quatro, cinco meses, trabalhamos com oficinas, vendo como é importante manter um número reduzido de barcos nas praias, para que a gente não tenha um turismo de massa. E isso é muito interessante. É importante que os municípios também trabalhem para que a gente possa ter um turismo ordenado da lagoa, diferente de todos os lugares, que é uma coisa louca, né?”, explica Chico.

Tanto Chico como Joel já estão sendo procurados para passeios do TBC no fim deste ano e esperam que os desafios em torno da atividade sejam superados.

Para o biólogo Eduardo Pimenta, as capacitações associadas ao TBC são de extrema importância, pois garante a segurança do serviço oferecido e a manutenção do cuidado com o ambiente lagunar, além de promover a geração de trabalho e renda. “É algo sustentável, reduzido e cuidadoso. Pensando na segurança ambiental, não há risco nenhum em pescadores realizarem as ações de Turismo de Base Comunitária na Lagoa de Araruama. Pelo contrário. Você só cuida do que você gosta e do que você conhece, e as pessoas que vivem da Lagoa de Araruama são as primeiras a cuidarem desse ambiente.  Eu entendo que corrobora para a manutenção da integridade desses ambiente. Se alguma coisa tiver errado, eles vão cobrar a providência para que se resolva, para que, enfim, evite que aquele problema continue a acontecer ou volte a acontecer.” explicou.

Foto: Reprodução/ Acervo da APAAPP

 

Recuperação da Lagoa

Na história do Turismo de Base Comunitária da Região dos Lagos, o desenvolvimento do saneamento básico e a recuperação da Lagoa de Araruama não podem ser esquecidos. Joel afirma que o espaço saiu de um ponto crítico, para encontrar a merecida recuperação.

“Houve um tempo em que nós não tínhamos esperança de que a Lagoa seria recuperada. Mas depois que começou a melhorar, a gente começou a ver de outra forma, com outros olhos. Na pior época, eu saía para pescar e voltava sem nada. Eu não gosto de falar disso porque eu me emociono, porque foi uma época de necessidade. Eu tinha um cargo civil, parei para virar pescador, me qualifiquei como pescador e não conseguia trazer a vida dentro de casa. É doloroso. Hoje ela está linda, limpa. E para quem viu como estava [antes da recuperação], é uma felicidade muito grande.”, conta o pescador, que também afirma que a qualidade da água mudou muito na última década.

A Prolagos, concessionária que abastece e controla sete estações de tratamento de esgoto nos municípios de Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia -, em 26 anos de atuação, fez os investimentos em saneamento básico na região totalizam mais de R$1,4 bilhão. Quando os serviços de saneamento básico foram concedidos à empresa, em 1998, nenhuma das cidades da área de concessão tinha acesso à coleta e tratamento de esgoto. 

De acordo com o Ranking do Saneamento 2024, do Instituto Trata Brasil, 90 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. No entanto, a Coordenadora de Responsabilidade Social da Prolagos, Aline Araújo, conta que a realidade dos municípios de atuação da Prolagos é diferente:

Foto: Débora Clara Santos/ Fontecerta.com

“A Prolagos tem acompanhado o crescimento populacional para garantir uma cobertura de água universalizada e uma coleta de esgoto com 93,7% de cobertura. A gente sai, lá atrás, de 0% de esgoto coletado e, hoje, cerca de 97 milhões de litros de esgoto in natura deixam de ser jogados no meio ambiente todos os dias.” explica Aline.

Apesar de ter chegado a um ponto em que novas atividades são criadas a partir da melhora das condições de qualidade, a concessionária continua investindo para que a porcentagem de coleta aumente. “No início das ações de tratamento, a empresa implantou um tronco-coletor com o cinturão de 38 km de extensão. E agora, em julho, na nossa quarta revisão do canal, a gente conseguiu a aprovação da agência reguladora para a construção de mais 26 quilômetros de rede e para transformar todas as nossas estações de tratamento em sistema terciário, que hoje é o mais completo possível porque tem um processo de desinfecção.” conta Aline.

As novas ações contam com R$ 450 milhões investidos e, seguindo o cronograma, as obras devem ser finalizadas até dezembro de 2025 – o que pode ser mais um avanço no saneamento básico da Região dos Lagos.

 

A Prolagos apoia o Turismo de Base Comunitária?

Perguntada sobre o surgimento de novas formas de renda a partir da recuperação da lagoa, Aline afirma que a Prolagos tem estimulado as ações dos pescadores.

“A gente fomenta e estimula por entender que é um turismo de base comunitária e ele é sustentável. Traz a questão da ancestralidade, da cultura da região, a história da região, a ligação e a conexão das pessoas com esse importante corpo hídrico que é a lagoa de Araruama. A gente está cuidando dessa lagoa, está fazendo todo o tratamento, e ter essa resposta de todos os investimentos realizados causa muito orgulho.” afirma.

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